segunda-feira, 10 de abril de 2017

NO MESMO DIA por MARIA EMÍLIA BOTTINI


 
NO MESMO DIA

 Maria Emília Bottini[i]

 Ao dirigir-me ao trabalho, via de regra, ouço algumas músicas que me agradam a alma, mas vez por outra também gosto de saber o que está acontecendo na capital do Brasil.

Dia desses ouvi sobre uma quadrilha que fora presa, pois assaltava condomínios de luxo em vários estados do país com ramificações na América Latina. Atuavam há mais de quinze anos e roubaram o equivalente a cinco bilhões de reais. Nem consigo imaginar tal quantia, afirmo que não sou boa de números, mas tenho uma boa noção de que seja uma pequena fortuna. O grupo chegou a abrir um restaurante em São Paulo para legalizar o dinheiro do roubo, também penhoravam algumas jóias, roubadas, em bancos. Há ousadia em nos desafiar nesse comportamento, reflexo da crença na impunidade e ineficiência do poder repressivo.

O que me chamou a atenção na notícia nem foi o montante roubado, pois atualmente banalizamos milhões, bilhões com certa facilidade. Causou-me certo espanto foi o relato de que de uma das mansões assaltadas foram subtraídas algumas bolsas femininas, aquele objeto em que carregamos nossos badulaques. Pois bem, o preço de uma das bolsas roubadas é de R$ 60.000,00. Seria de ouro, de diamante? O que justifica tal valor? O detalhe é que na mansão assaltada foram furtadas três bolsas, totalizando o pequeno valor de R$ 180.000,00, ou seja, o equivalente a um imóvel ou até dois imóveis dependendo da região do país.

No mesmo dia, no final da tarde fui à academia como tenho feito, religiosamente, quase que todos os dias, afinal a saúde do corpo precisa de cuidados. Sai do carro e caminhei um pouco. No percurso passei por um grande supermercado que tem vários containeres na parede lateral utilizados para depositar lixo. Como passo com certa frequência no local, vejo muitos pães e outras comidas desperdiçados nos arredores desse local.

Isso me incomoda porque fui educada para não colocar comida fora e considero desrespeitoso quando muitos ainda não fazem uma refeição ao dia, que dirá três.

Quando cheguei próximo do lixo, vi três mulheres a vasculhá-lo. Procuravam restos de comidas para si e quem sabe para algumas bocas famintas que as aguardavam, com certa ansiedade e esperança, pois naquele final de dia teriam algo para enganar o estômago vazio.

Não pude deixar de lembrar Manuel Bandeira com seu poema O Bicho (1947).

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Eu apenas mudaria o final desse poema para dar a ele a atualidade do fato presenciado, “o bicho, meu Deus, eram mulheres”.

Poema clássico, que sobreviveu ao tempo de setenta anos. O poema chegou à terceira idade e não envelheceu em seu conteúdo, continua a denunciar nossa realidade vergonhosa e doída de se ver, de que alguns vivem das sobras dos que muito tem e que com frequência até se permitem desperdiçar.

Que dia! Pensei comigo, enquanto algumas mulheres possuem bolsas de valores astronômicos outras revolvem lixos da capital para sobreviverem. Esse é o mundo habitado e conduzido por seres que se autodenominam ‘civilizados’. O que seria do Planeta se não fôssemos indivíduos dotados de inteligência? Será mesmo que temos consciência de que estamos de passagem? De que a finitude nos espreita? Será que a fome no estômago dos desafortunados dói menos? O frio é menos frio? A dor é menos intensa?

Está difícil de acreditar que a humanidade ainda conseguirá se humanizar. É urgente colocar-se no lugar do outro. Façamos a experiência de ficarmos um dia sem comer. Talvez isso nos torne mais solidários, compreensivos e entendamos um pouco aqueles que, para não morrerem de fome, buscam no lixo seu sustento. Afinal, o único bem que realmente temos é a vida.






Psicóloga da Clínica Ser
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF)
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB)
Autora do livro No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer. E-mail: emilia.bottini@gmail.com
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

ILUMINAR O AMOR COM MARIA EMÍLIA BOTTINI


imagem net
 

ILUMINAR O AMOR

Maria Emília Bottini[i]

Minha escrita de hoje é para pensarmos na vida. Muitos já passaram pela experiência de ter o corpo acometido por um câncer ou mesmo algum familiar. Essa doença, atualmente, afeta grande número da população e chega-se a pensar que não há interesse da ciência na erradicação dessa moléstia, pois a doença gera lucros, por veze maior que a saúde.

Com isso, quero dividir com vocês um pouco da história de uma pessoa incrível que luta pela vida. Tenho uma amiga que admiro profundamente, seu humor é sua marca, quando estou com ela o riso é fácil, mas as lágrimas também se fazem presentes. Ela tem câncer em seu corpo minúsculo e frágil, mas seu interior carrega um mulherão com forças avassaladoras que deixa muitos de nós recolhidos na insignificância.

Sua luta contra o câncer tem algum tempo, foram muitas quimioterapias, já passam de quarenta. Confesso que por vezes não sei de onde tem retirado forças. Ela mesma se questiona sobre isso. Afirmo a ela que é para além do corpo casando, ferido e maltratado pela doença, seus recursos brotam de seu interior, forjados ao longo do seu viver.

Estudei a temática da morte para entender a vida e pensei muito sobre emprestar-lhe alguns livros de Elizabeth Krübler-Ross, pioneira nos estudos de tanatologia. Além de pensar, separei três livros que me pareciam adequados que ela os conhecesse, deixei-os na estante para em um algum momento falar-lhe deles.

Não demorou e recebi sua visita em minha casa. Nessa ocasião achei oportuno falar-lhe sobre esta grande autora e seus escritos. Minha amiga só me olhava e dizia “Eu não acredito, não acredito”. Alguém de sua relação lhe havia sugerido a leitura Krübler-Ross naquele dia. Sincronicidade? Acaso? Coincidência? Não sei. O fato é que assim aconteceu e os livros partiram com ela naquela noite.

O tempo passou e em fevereiro entregou-me quinze páginas escritas frente e verso. Ao chegar em casa me envolvi com algumas atividades, mas não poderia dormir naquela noite sem ler o que havia nos manuscritos. Havia observações, desenhos, dúvidas, perguntas, reflexões e conversas com a autora de “Os segredos da vida”, que trata das lições que devemos aprender antes de morrer, sensivelmente regado a exemplos ricos em sabedoria e delicadeza.

Ao finalizar a leitura entendi que este livro havia penetrado o seu DNA, entranhado sua alma, então minhas lágrimas floresceram.  Não me contive e gravei-lhe um áudio no calor das minhas emoções de receber esse presente-vivo. Emprestei-lhe livros e ela me devolveu vida, sua vida, sua trajetória, sua música, seus alunos, sua história bonita e sofrida. No áudio a questiono sobre qual seria a lição que precisava aprender antes de partir.

Minha amiga não me retornava, fiquei um tanto preocupada, queria um retorno imediato, por vezes é preciso esperar o tempo, visto sua saúde ser frágil.

Também gravou um áudio em que agradecia a experiência e a oportunidade de ter conhecido Elizabeth, agora já eram íntimas e que a lição que mais precisava aprender era a do amor. Ouvi o áudio e passei a mão em um bebezinho que me acompanha em muitas atividades. Nos encontramos no grupo de yoga que fazemos nas terças e quintas. Grupo que tem uma instrutora cuidadora de nossos corpos, mas também de nossas almas.

Nesse dia a lição do amor foi aprendida com mais propriedade, com o bebezinho em seu colo nos contou de sua menina, de suas marcas na adolescência, da anemia plástica aos quinze anos, do transplante de medula, das manchas que o corpo recebeu para todo o sempre, da autoestima abalada, da faculdade no Rio de Janeiro, das aulas de biologia, da professora que se aposentou antes do tempo pelo câncer, da música que invadiu sua alma com a flauta... Contou-nos do sentir falta de amor algumas vezes, das diferenças, das dores que o câncer lhe trouxe, da dificuldade de entender alguns cuidados...

Enfim, dividiu conosco a dor e o prazer de ser quem é.

Minha amiga falou, falou, falou... Nós que participamos desse momento fomos escuta(dores) da mulher guerreira, batalhadora e de uma intensa luta pela vida que se abriga em seu corpo marcado pelo câncer, características que desconheço em muitos corpos saudáveis que cruzam meu caminho.

Ao final desse momento de yoga-terapia enchemos balões coloridos com o amor.

Optamos por não estourar os balões, mas sim carregá-los conosco e espalhá-los por onde estivéssemos.

Os balões foram iluminados o que trouxe luz ao amor. Talvez tudo o que precisamos fazer em uma vida finita seja iluminar o amor para que ele siga para além de nós mesmos quando aqui não estivermos mais.
 
[1]Psicóloga da Clínica Ser
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF)
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB)
Autora do livro No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer
 


 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

RODA DE TERAPIA COMUNITARIA INTEGRATIVA (TCI) - PARCERIA SEJUS/MISMECDF


MORADORES DE ITAPOÃ PARTICIPAM DE RODA DE TERAPIA INTEGRATIVA PROMOVIDA PELA SEJUS/MISMECDF
Moradores de Itapoã e servidores da administração participaram da Roda de Terapia Integrativa promovida pela Secretaria de Justiça (Sejus). O encontro aconteceu nesta terça-feira (4), pela manhã, na área externa do edifício sede da administração. Vinte pessoas participaram da atividade. O objetivo do programa é auxiliar a prevenção ao uso de drogas e a superação da dependência.
A ação é muito importante para a comunidade. Com a terapia é possível integrar profissionais e pessoas que necessitam de atendimento. A realidade local torna-se um foco importante. Essa visão estratégica possibilita a criação de alternativas de combate ao uso de drogas e ajuda o Estado e a família a construírem ações que tragam melhorias para os atendidos.
As facilitadoras da Roda Integrativa foram as terapeutas Helenice Figueiredo e Iolanda Santos. A servidora da administração e terapeuta comunitária, Iza Sousa, também auxiliou a atividade.
 

sexta-feira, 24 de março de 2017

15 ANOS DE MISMECDF - MARÇO 2017 - VÍDEO



Hoje, no dia internacional da Mulher, celebramos 15 anos!
Para todas as mulheres #NenhumDireitoAMenos!
Parabéns para todos nós, homens e mulheres que fazemos o MISMEC-DF! Que continuemos juntos com respeito e Amor na construção de redes solidárias e de cidadania!

quinta-feira, 23 de março de 2017

MISMECDF & Jovem de Expressão, parceria renovada!

 
 
 
 

WORKSHOP CUIDANDO DO CUIDADOR NAS RELAÇÕES EM AMBIENTES DE TRABALHO



15 ANOS DE INSTITUIÇÃO - MISMECDF



Março é mês de celebração! O MISMEC-DF no dia 08 celebra 15 anos de nascimento!
São 15 anos de implantação da Terapia Comunitária Integrativa no Distrito Federal! São 15 anos de uma linda caminhada!
Agradecemos com muito amor a todos nossos fundadores, amigos e amigas, terapeutas comunitários, participantes das diretorias que deram e dão sua contribuição e que nos acompanham nessa jornada e juntos possamos continuar contribuindo "para a construção de redes solidárias que promovam o fortalecimento da cidadania ativa e autonomia de pessoas e comunidades”.
 
ALGUNS DEPOIMENTOS:
 
- MISMEC-DF 15 anos de AMOR! E aquilo que não é AMOR, é um pedido de AMOR. Parabéns a todos que fazem o MISMEC-DF! (Áurea Briseno)
- "Há 14 anos conheci o MISMEC-DF e, através dele, a Terapia Comunitária Integrativa. Com a TCI aprendi que poderia sarar as minhas dores quando falasse sobre elas e acolhesse, com o coração, a dor do outro. Com o MISMEC-DF aprendi a importância da rede de cuidado, solidariedade e apoio no desenvolvimento da saúde pessoal e comunitária. Parabéns MISMEC-DF por esses 15 anos de difusão da TCI no DF e por fazer parte dessa teia solidária de Polos Formadores EM TCI, da ABRATECOM! Que sua missão seja sempre a de acolher, cuidar e incentivar a liberdade pessoal e coletiva. Com admiração e gratidão! " (Perlucy Santos) 
- "Nestes anos enquanto Mismequiana aprendí 'que vida de terapeuta é tecer felicidade'. Parabéns pelos seus 15 anos Mismec Df! ( Nair Meneses)
- Parabéns ao Mismecdf pelos seus 15 anos de dedicação à comunidade, de forma consciente, profissional e muito humana. O Mismecdf deixa um exemplo a todos segmentos que atendem as comunidades carentes.  Que esse trabalho continue sempre. Abraços! (Fernando José Gramaccini, Coordenador do Movimento Pedagogia das Virtudes)
- Que lindo tempo de festa.  Completar 15 anos é um momento especial, inesquecível e repleto de alegrias. Parabéns MISMEC/DF por essa data graciosa.
O polo formador CEFCOM/CIRANDA SOCIAL agradece as belas páginas de acolhimento, partilhas e ações na direção da valorização da vida registradas no universo durante essa trajetória de 15 anos. E deseja a todos felicidades, sucesso, saúde e muito amor, hoje e sempre.
Valeu Grande Grupo!  Abraços Solidários!  Equipe CEFCOM/ CIRANDA SOCIAL
- "A Terapia Comunitária me foi propulsora de um encontro generoso comigo mesma e com as outras pessoas. Fomentou uma rede de cuidado, estimulou o autocuidado, uma troca energética. Diria que foi um ressignificar coletivo de experiências individuais. A sensação das rodas: Quando olho a outra me vejo e da mesma forma, quando me olho posso ver a outra. Entendo que para utiliza-la como ferramenta de trabalho em grupo precisamos mais do que a técnica. Requer que saibamos ver as pessoas em toda sua diversidade e adversidade, com afeto, respeito, igualdade e criatividade. As dores, sofrimentos, angústias compartilhadas nas rodas são vivenciadas como possibilidades de crescimento e ineditismo. Parabenizo o Mismecdf pela trabalho amoroso de formação e divulgação dessa metodologia." (Ádila - NAFAVD/Sedestmidh)
- "Felicito o Mismecdf pelos 15 anos de atuação no DF. Conheci a TCI em 2014 durante uma visita a uma roda no Bairro Bom Jardim em Fortaleza e fiquei encantada com a força e ao mesmo tempo ternura dessa terapia. Voltando a Brasília procurei e logo achei o Polo Mismec Df. Sou da Turma XX e acredito fortemente na potencialidade da TCI como prática e como matéria na minha prática docente na UnB. Que sempre contiue MismecDF a luz e a leveza que traz na vida das pessoas." (Muna Muhammad Odeh - Professora de Saúde Coletiva na Universidade de Brasília)
- "MISMEC-DF, feliz aniversário!!! Vocês são 10! Dez em integridade, compromisso, competência, sabedoria, lindeza!!! Gratidão enorme pela convivência tão acolhedora e por tanto que aprendi com vocês."(Guacira Oliveira)
- "Parabéns, MISMECDF!!!
A TERAPIA COMUNITÁRIA me ensinou a olhar o próximo com os olhos de DEUS.
É só gratidão pelo MISMECDF e pela honrosa missão a mim conferida.
TAMOJUNTO !!!!" (Fátima Neri)
- "Muita coisa mudou em minha vida após o curso de TCI. MISMEC-DF, me forneceu as asas que eu precisava para voar...Total mudança em minha vida. Quero gravar um vídeo em agradecimento à vocês. Continue neste propósito de crescimento das pessoas. Gratidão!" (Rita Gomes)
- "Queridxs amigxs de MISMECDF, paz y bien!
Como Polo Muyumpa, nos sentimos honrados por el apoyo que hemos recibido de ustedes, la calidad humana y técnica de las personas que nos han acompañado han sido fuente de inspiración constante para nuestro trabajo, de corazón les agradecemos y felicitamos.
Gracias por ser nuestro polo padrino.  Abrazos solidarios."  Eluzinete Pereira y Eduardo Campaña
Polo Muyumpa Terapia Comunitaria - Quito -Ec
- Ao MISMEC-DF e a todos os seus integrantes que fazem parte desses 15 anos de colaboratica construção humana, deixo o meu muito obrigada! Também com a palavra GRATIDÃO, quero dizer do acolhimento, dedicação e cuidado que, espontaneamente, recebi de seus formadores.
Para mim, o MISMEC-DF é causa e efeito do amor humano compartilhado.
Parabéns MISMEC-DF pelos seus 15 anos de história! Espaço que acolhe e promove o compartilhar das experiências do humano. (Andria Maria Catho Menin)
- MISMECDF, Parabéns pelos 15 anos de presença no DF!!
Os Correios conheceu a Terapia Comunitária Integrativa em 2005, e alinhou esta proposta aos seus programas corporativos de saúde e qualidade de vida para atendimento aos empregados e familiares, proporcionando um espaço de fala e escuta qualificada, por acreditar que a saúde e o bem-estar dos trabalhadores são focos que se estendem além dos limites de uma Organização.
Nossa gratidão ao MISMECDF pela presença marcante em facilitar e apoiar a TCI nos Correios, permitindo a perenidade nos últimos 11 anos de nossas valorosas “Rodas de Fala”.
(Dulcicleide de Araújo Melo – assistente social e terapeuta comunitária) Dulci Melo
- "A História do MISC-Minas, surgiu por um sim, da Dra. Henriqueta, juntamente com o Dr. Adalberto Barreto, em ministrar um Curso de Terapia Comunitária Integrativa, em Ipatinga-MG, em 2004.
O MISMEC-DF foi o padrinho e contribuiu para que a TCI, seguisse o seu rumo e se consolidasse em Minas Gerais. Podemos afirmar que seguimos o exemplo desse Polo Formador, de disponibilidade e de vontade de que a TCI fosse reconhecida.
Hoje temos Terapeutas Comunitários em mais de 100 cidades do Estado, formados pelo MISC Minas.
A todos aqueles que fizeram parte da historia do MISMEC/DF nosso agradecimento. Especialmente: Dra. Henriqueta, Mauro Mendonça, Mariano Pedroza, Perlucy, Ana Maria, Helenice, Doralice e Nair, que foram as profissionais com quem tivemos mais contato.
Parabéns, pelo 15 anos de trabalho!"
Marlene Rodrigues e José Galvão - Diretoria do MISC Minas

- MISMECDF 15 anos cumprindo sua missão de formar cuidadores: pessoas que distribuem o bálsamo transformador das lágrimas em pérolas preciosas e a dor em luz que ilumina os compartimentos mais profundos da alma com as cores da esperança e da alegria de viver. Parabéns a toda a equipe e profunda gratidão pelo carinho com que nos acolhe. (Nilce Rodrigues Camarão - Educadora Popular e Terapeuta Comunitária)
 
 
 
 

ACOLHIMENTO NA TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA - Maria Henriqueta Camarotti - Nicole Hugon


 
ACOLHIMENTO NA TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA
 Maria Henriqueta Camarotti[1] - Nicole Hugon[2] 

A Roda da Terapia Comunitária Integrativa (TCI) começa com a fase do Acolhimento. Todos sentados em círculo, numa relação horizontalizada, terapeutas e participantes, se preparam para viver esse momento. No início o terapeuta comunitário explica, em poucas palavras, o que é a TCI, expõe as regras e comemoram aniversários e datas importantes para os integrantes do grupo (CAMAROTTI e GOMES, 2009).

Falar de acolhimento seria falar da Terapia Comunitária como um todo, pois em cada fase e ritual vivenciado na Roda existem elementos de acolhimento, de suporte e de escuta. De fato, esta metodologia nasceu do acolhimento que os irmãos Barreto, Airton e Adalberto, se propuseram a fazer com as pessoas da Favela do Pirambu/Fortaleza, Ceará (BARRETO, 2007). No nascedouro dessa abordagem, emergiam espontaneamente vivências práticas de acolhimento[3], recepção, abrigo; sintonia perfeita com o desdobramento da metodologia utilizada, posteriormente denominada por Adalberto Barreto de Terapia Comunitária.

Para iniciar nossa reflexão sobre o Acolhimento, chamamos atenção para o significado de gesto e linguagem, expressões tão importantes nas relações humanas. Há que se harmonizar essas duas ações de forma que o ato de acolher seja percebido como falas e atitudes genuinamente expressadas pelos terapeutas comunitários no momento da Roda. O acolhimento é sentido e recebido como tal quando é realizado por uma pessoa que está se auto-acolhendo nas suas várias dimensões e realidades.

O terapeuta comunitário, para poder acolher o outro, deve começar a acolher a si mesmo nas suas múltiplas identidades; é nesta capacidade de se acolher que nasce a possibilidade de uma sintonia entre a postura, o gesto e a palavra, permitindo assim um acolhimento autêntico e realmente caloroso, pleno de verdadeira atenção por si mesmo no encontro com o outro.

 
Nesse sentido relembramos o conceito do filósofo Martin Heidegger[4], quando fala que o acolhimento do outro, quando na vigência de um autoacolhimento, se torna uma doação do ser e do tempo, verdadeiramente. Essa via de mão dupla de quem acolhe e de quem é acolhido, de quem fala e de quem escuta, forma um verdadeiro encontro, revelado numa dimensão fenomenológica mais íntima e menos coisificante. Carmem Lúcia Barreto (2008) complementa essa reflexão e afirma que na dimensão heideggeriana, a experiência consiste em ser “afetado” e “transformado” num encontro com o outro na sua alteridade, um acontecimento dramático que supõe o estar instalado num mundo como horizonte de encontros. Esse “horizonte, ao mesmo tempo, abre-se para transformações e resiste e se opõe a qualquer captura pelo outro”.

Portanto, o que se mostra mais importante prá nós é entender o acolhimento não como uma captura da alma do outro, e sim um processo de libertação desse outro, estimulando-o a assumir o leme de sua vida e direcionando-o para fazer suas escolhas. Em resumo, o Acolhimento na Terapia Comunitária é o ato de fortalecimento do grupo para entregar-se a si mesmo, empoderando-o na sua capacidade de decisão e busca do autoconhecimento. 

Para enriquecer este texto sobre o Acolhimento na TCI, gostaria de incluir as pertinentes reflexões do filósofo Martin Buber[5]. Este pensador, de origem judia, contribuiu, através do caminho da Filosofia do Encontro e do Diálogo, para entendermos as relações humanas como necessariamente uma reciprocidade dialógica, onde tudo se passa no “entre”, na relação entre os interlocutores. Segundo Buber, existem duas formas do homem se aproximar do mundo: colocando-se face a face na relação EU-TU, ou então, numa relação coisificante, denominada por ele de EU-ISSO.

A proposta da Terapia Comunitária e, sobretudo, do acolhimento que ela carreia, segundo nossa visão, está centrada numa relação EU-TU, significando uma relação inter-humana – termo utilizado por Buber – em tudo aquilo que ocorre na realização de uma Roda. Nessa relação caracterizada como inter-humana, quando alguém se expressa, falando de sua dor e de seu sofrimento, todos os demais se tornam cúmplices da história do outro, se revelando também parceiros na busca de soluções.

Os sentimentos, nós os possuímos, o amor acontece. Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora mas a realidade. O amor não está ligado ao EU de tal modo que o TU fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre o EU e o TU”. (BUBER, 2001, p.17 In GOMES, 2009/2010).

Importante frisar que para que o Acolhimento aconteça da forma como propõe a TCI necessário se faz respeitar e introjetar as regras do não julgar, não fazer discurso, não fazer sermão; pois, o julgamento do outro nos afasta inexoravelmente desse outro e inviabiliza uma relação na forma de EU-TU como concebida por Buber. A pessoa que julga transforma o outro em coisa, fazendo acontecer então uma relação EU-ISSO.

Finalmente podemos afirmar que para que o Acolhimento se torne um fenômeno de amor, numa concepção buberiana, há que se desenvolver entre os participantes da Roda uma relação sem julgamentos e sem a priori. Este é nosso objetivo e nosso sonho como terapeutas comunitários!

A fase do Acolhimento é um momento fundamental na Roda de TCI no sentido de promover a integração do grupo e a abertura de espírito para a participação da sessão. Concordamos com Maria das Graças Martini (2011) quando diz que “O sucesso da Terapia Comunitária começa com o trabalho do co-terapeuta que realiza o acolhimento que, quando bem feito, envolve os participantes numa energia de amorosidade e harmonia, deixando-os a vontade, acolhidos e em sintonia com o clima da Terapia”.

A integração na Roda se começa pelas atitudes: todos em circulo, numa posição de igualdade e direitos, na maneira de se sentar, de deixar o espaço aberto para novos participantes (mesmo que cheguem atrasados). Contrariamente às situações de verticalidade, que impõe às pessoas certo constrangimento, a Roda de TCI autoriza todas as formas de expressão; deixa as portas e janelas abertas para se chegar e sair a qualquer momento e vontade.

 A fala explicativa e amorosa sobre a Roda que irá acontecer, provoca muito conforto para as pessoas por saber antecipadamente o sentido do encontro. Além disso, as dinâmicas de aquecimento realizadas para aquecer e integrar o grupo é uma forma mágica de gerar foco e acuidade através de estímulo ao movimento e à expressão corporal. Os terapeutas comunitários franceses percebem o Acolhimento como o momento de “briser la glace”[6], onde os participantes relaxam e se entregam para viver aquela experiência.

Na Terapia Comunitária vemos que a fase do Acolhimento é o momento em que as pessoas são recebidas, integradas ao grupo, tranquilizadas de suas preocupações e ansiedades. Por ser uma metodologia com etapas precisas e sequenciais, as explicações iniciais tranquilizam os participantes e evitam o desencadeiamento de ansiedades ou outros sintomas ligados ao momento de expectativas. Em todas as etapas seguintes, os animadores anunciam os procedimentos propostos e reforçam sempre a Roda como um espaço aberto para falar ou não falar, se expressar da maneira como cada um consegue ou deseja.  Assim, o facilitador confiante na metodologia, pode superar o medo das falas soltas ou de que as "interpretações grosseiras" causem reações emocionais ou descompensações dos participantes. O acolhimento promove ao grupo um espaço de fala seguro e envolvente

Fazendo uma imagem desse momento, poderíamos considerar a Roda de Terapia como o momento onde “eu aqui posso soltar as armas e relaxar”, “aqui eu posso ser eu mesmo”.  Neste momento os participantes entram numa viagem, anunciada e preparada pelo “piloto” para que o encontro se desenvolva o mais harmonicamente possível: “Atenção senhoras e senhores vamos nos preparar para que o vôo seja confortável e amoroso...”

Consideramos a Terapia Comunitária Integrativa como uma metodologia lógica, concatenada, onde todas as fases têm sua importância em si e no conjunto. Seguindo essa concatenação, consideramos que o Acolhimento tenha os seguintes objetivos:

1-   Criar um espaço circular de fala e de escuta;

2-   Dar boas vindas a todos que vieram participar da Roda;

3-   Tranqüilizar as pessoas quanto ao processo da TCI que vai se desenrolar;

4-   Apresentar as regras da metodologia da TCI para os participantes;

5-   Promover a inclusão e estimulo da autoestima quando nas boasvindas, esclarecimentos e comemoração dos aniversariantes e das datas importantes;

6-   Promover relaxamento e segurança nas pessoas com as informações dadas e com as dinâmicas de integração;

7-   Integrar o grupo, tornando-o mais próximo, mais afetivo e lúdico.

Didaticamente, podemos dividir a Fase de Acolhimento em dois momentos: 1- Boasvindas e esclarecimentos e as 2- dinâmicas interativas.

Na primeira fase das boasvindas e esclarecimentos se torna fundamental a postura e o centramento do terapeuta comunitário. Esta postura segura e tranquila do terapeuta, baseada na precisão das regras e da metodologia, e muitas vezes na parceria dos coterapeutas, tem um papel muito importante, pois, oferece proteção aos participantes e proporciona que o grupo se autoregule.  É o momento em que as pessoas precisam assegurar-se que estão protegidas e seguras para se entregar àquela experiência. Normalmente elas trazem sentimentos e expectativas muito fortes e, às vezes turbulentas, para a Roda; são pessoas que estão vivendo dificuldades extremas na busca da sobrevivência, e, o Acolhimento é o momento de buscar apaziguar um pouco a mente para possa abrir-se para novas informações e experiências. É um hiato providencial no burburinho do cotidiano.

Muito importante sublinhar o trabalho realizado sobre os terapeutas comunitários durante sua formação, de forma a deixá-los tranqüilos, seguros e confiantes, pelos recursos da metodologia (regras etc) e pela confiança na capacidade de autorregulação do grupo. Nós terapeutas tendemos a perceber o grupo como uma força harmônica, onde podemos contar com ela durante todo percurso da Roda.

As dinâmicas interativas ou de aquecimento são oportunidades de romper com o fechamento natural de quem chega a um ambiente estanho, de forma a integrar o grupo num nível de horizontalidade harmoniosa e calorosa. Aconselha-se utilizar dinâmicas curtas (3 a 5 minutos no máximo), leves, alegres e adequadas a cada tipo ou idade dos participantes. Muito importante observar a cultura de cada grupo e utilizar dinâmicas advindas da história de vida, das vivências infantis ou mesmo do arcabouço cultural das pessoas.

A comemoração dos aniversários, festas, realizações e das boas notícias tem uma grande relevância neste momento de celebração da vida, antes de abordar o sofrimento, dirigindo a atenção para a possibilidade de superar dificuldades. É uma respiração de vida e bem-estar, acalmando os receios dos participantes, lembrando-nos que "após a tempestade vem a bonança", que a vida é feita também de momentos felizes. Ela também representa a aceitação de cada um pelo grupo.

Nesse primeiro momento da Roda, na fase do Acolhimento, é acionado o ponto de partida de um “fio” que vai se desenrolando até o final. Os terapeutas explicitam então que a Roda de TCI é um continuum, onde tudo faz sentido e tem uma função no contexto. Muito importante que o terapeuta expresse que a metodologia da TCI tem um começo, um meio e um fim. Claro que não é necessário nomear neste momento todas as fases vindouras, mas, os animadores da Roda transmitirão aos participantes a compreensão de que cada momento se completará com os seguintes. 

Como devem ser a fala e a postura do terapeuta nesse momento? A seguir listamos algumas sugestões para a postura do terapeuta:

1-   Atitude simpática, aberta, compreensiva e ao mesmo tempo firme nas suas colocações;

2-   Atitude corporal também de abertura, bem posicionado, olhando para todos nos olhos com suavidade, assumindo uma posição na Roda onde possa visualizar a maior parte possível do grupo;

3-   O discurso deve ser sintético, falando do essencial, daquilo que vai ser fundamental na seqüência da Roda. Falar num tom de voz suave, claro e numa altura possível de ser escutado por todo grupo;

4-   Cuidar para que não se interrompa a seqüência metodológica da Roda, sobretudo quando acontecem falas longas e fora do que é solicitado no momento;

5-   Saber cortar as falas ou discursos de forma suave e firme. Muito importante que o terapeuta esclareça que durante a Roda a pessoa poderá falar de suas dores e sofrimento e também ser escutada com carinho;

6-   A equipe de terapeutas comunitários deve ficar atenta a todo grupo, além de acompanhar as pessoas que estão se expondo naquele momento.

Entendemos que um Acolhimento afetuoso possibilita o grupo a ficar confiante e predisposto a participar da melhor forma possível da Roda da Terapia Comunitária. Esta convicção precisa ser transmitida durante a formação, assim como é nos encontros dos Módulos e das Intervisões que os terapeutas comunitários vão se preparando para acolher as pessoas no seu sofrimento, nas suas alegrias, nas suas peculiaridades e diferentes naturezas humanas.

Podemos concluir essa reflexão dizendo que se tivéssemos uma palavra para resumir toda a formação de Terapia Comunitária essa palavra seria Acolhimento. 

Bibliografia

BARRETO, A. P. Terapia Comunitária passo a passo. Fortaleza. 2007
BARRETO, J. A. P. Direitos Humanos e cidadania na favela. In: GRANDESSO, M. e BARRETO, M. R. Terapia Comunitária: Tecendo Redes para a transformação Social, Saúde, Educação e Políticas Públicas. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2007.

BARRETO, C. L. B. T. Uma possível compreensão fenomenológia existencial da clínica psicológica. Postado em 2008 http://www.lefeusp.net/arquivos_diversos/VIII_simposio_anpepp/textos%20pesquisadores/barreto08.pdf Postado em 2008. Pesquisado em 2012.
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[1] Neurologista, psiquiatra, mestre em psicologia, Gestalt Terapeuta, terapeuta comunitária e formadora dessa metodologia.


[2] Gastroenterologista, especialista em alcoolismo, terapeuta comunitária e formadora da TCI em Marselha - França


[3] A palavra acolhimento significa recepção, atenção, consideração, refugio, abrigo, agasalho (FERREIRA, 1986
 


[4] Martin Heidegger, filósofo alemão, é um dos pensadores mais importante do século 20. Esse pensador considerava o seu método como fenomenológico e hermenêutico. Sua proposta fundamental foi por em evidência o que está na maioria das vezes oculto nas coisas.


[5] Filósofo, escritor e pedagogo de origem judaica, nascido, no final do século XIX, em Viena, Áustria. Centrou sua obra na Filosofia do Diálogo. Publicou as seguintes obras: Eu e Tu, Sobre a Comunidade, Eclipse de Deus e Lenda do Baal Schem, A.
 


[6]  Quebrar o gelo