TERAPIA COMUNITÁRIA: COMO TOCAR O CORAÇÃO DAS PESSOAS

 TERAPIA COMUNITÁRIA: COMO TOCAR O CORAÇÃO DAS PESSOAS

Psicóloga Mariza Bregola de Carvalho
 
Qual a diferença entre a Terapia Comunitária e uma roda de conversa? Qual a diferença entre a Terapia Comunitária e outros grupos de autoajuda?
Como percebemos que uma sessão foi de fato terapêutica? E como sabemos que a sessão foi mais "pedagógica " do que terapêutica?
Como uma sessão terapêutica afeta nossa motivação, nossa autoestima, nossa identidade como terapeutas?
Várias são as reflexões que estas perguntas suscitam. Entre tantas, querermos destacar um aspecto que consideramos essencial à Terapia Comunitária e também às outras formas de terapia.
Há uma diferença fundamental entre uma sessão de terapia que é terapêutica daquela que não o é: a sessão é terapêutica quando toca o coração das pessoas.
O protagonista sente-se compreendido, acolhido e aceito. Ele sabe que o terapeuta sintonizou com seu sofrimento, que o acolheu e compreendeu, que suas preocupações foram levadas a sério, que o grupo respeitou sua história e se conectou com ela. Este saber é um saber vivenciado na sessão, tanto pelo protagonista quanto pelos demais participantes e pelo próprio terapeuta. Há uma conexão de afetos e emoções que se tornam coletivos e que fazem parte dos sentimentos de todos os seres humanos. São sentimentos que denominamos "afetos primários", e que conectam as pessoas e as tornam por isto mesmo humanas.
São estes sentimentos que buscamos liberar e compreender nas sessões de Terapia Comunitária. Quando tocamos estes sentimentos, fazemos de nossas sessões verdadeiras trocas de apoio, afeto, validação. Se não conseguimos tocar os sentimentos, as sessões serão tecnicamente corretas, mas podem não ter significado duradouro para quem participa.
Os participantes também se sentem compreendidos e respeitados, pois encontram na compreensão do terapeuta a atitude de aceitação que os encoraja a, no futuro, apresentar seus problemas. Pela conexão que vivenciaram do terapeuta e do grupo com seu sentimento básico, reconhecem a importância de compartilhar e ter compaixão.
Quais são os afetos primários que os seres humanos vivenciam?
Amor, desamor, culpa, justiça, injustiça, ódio, indiferença, confiança, traição, inclusão, exclusão, rejeição, acolhimento, perda, são alguns destes sentimentos. Nossos afetos primários provêm basicamente de nossos desejos e nossos temores.
Queremos o amor, tememos o desamor. Tememos sentir culpa. Buscamos a justiça, rechaçamos a injustiça. Tememos o ódio e a indiferença. Queremos confiar, tememos ser traídos. Queremos pertencer, tememos ficar de fora. Queremos ser acolhidos, tememos ser rejeitados. Tememos perder...
Estes sentimentos são universais, e é em torno deles que se organizam os temas de nosso viver. Cada um de nós é afetado mais de perto por alguns destes sentimentos, e nossa vida tem em seu centro ações e histórias construídas a partir deles.
Vejamos a seguinte queixa:
"Meu pai morreu há 4 meses, e desde então estou muito mal. Venho resolvendo tudo o que ficou para ser resolvido. Eu tenho que trabalhar, mas tenho também que resolver os papéis da aposentadoria dele, os compromissos que ele tinha no serviço, tenho que ver a pensão da minha mãe, tenho que ajudar com dinheiro. Talvez minha mãe venha morar comigo, sou eu que tenho que pensar e resolver tudo. Estou cansada, não aguento mais."
O que esta pessoa está sentindo?
Sobrecarga... impotência... dificuldade de pedir ajuda... sentimento de que só ela é que pode resolver as coisas...que ninguém pode fazer algo por ela... Mas o que mais ela está sentindo? Qual é o sofrimento mais profundo neste momento em que ela está tão só e tão sobrecarregada? O que está por trás de tudo o que ela relatou, que a faz sentir-se tão desprotegida?
O sentimento mais fundamental que ela está vivendo neste momento é o sentimento de orfandade que o ser humano tem quando perde o pai, não importa em que idade. É o sentimento de nunca mais poder contar com a proteção do pai. A criança que vive dentro do adulto chora e lamenta a perda daquele que um dia foi sua proteção e ela teme enfrentar a vida sozinha.
Este sentimento, que identificamos como um dos afetos primários, é o que a pessoa está expressando com sua queixa de sobrecarga. Ela se queixa de sobrecarga, mas também se queixa da solidão em que se encontra. Ela se queixa de que tem que fazer tudo sozinha, mas também desabafa indiretamente que não tem mais quem olhe por ela.
O terapeuta, ao tocar as emoções, conduz a sessão para o mundo dos sentimentos. Em várias sessões, na fase da contextualização, alguns participantes fazem perguntas por curiosidade. O protagonista sente-se por vezes incompreendido e incomodado em ter sua história conduzida para o caminho da história do outro. É papel do terapeuta elaborar perguntas que direcionem a sessão para os sentimentos básicos, que fazem com que o participante se sinta compreendido e acolhido.
São estes afetos que procuramos conhecer e tocar na Terapia Comunitária, para que os participantes possam fazer contato com eles, emocionar-se e reorganizar suas vivências. Quando os participantes conectam-se pelos afetos primários, a sessão é vivida de modo inesquecível.
Lembrando do exemplo da mãe que traz a queixa de que quis organizar uma UTI para crianças, pois perdeu um filho por falta de UTI em sua cidade, e se queixa de que as pessoas não se mobilizam para participar, nos perguntamos quais são os sentimentos que ela vivencia e expressa através desta queixa?
Poderíamos pensar que ela expressa a injustiça social, que arrebatou seu filho de seus braços. E construiríamos um mote baseado em "quem já sofreu a injustiça social que ocasionou a perda de um ente querido"? E isto é verdadeiro.
Poderíamos pensar que ela se sente impotente diante de um sistema que não protegeu seu filho quando ele necessitou. E construiríamos um mote baseado em "quem já viveu o sentimento de impotência ao querer salvar a quem ama"? E isto também é verdadeiro.
Mas podemos pensar também que mais além está o pedido de consolo pela perda do filho que ela nunca poderá ver crescer. O pedido de que as pessoas a acolham, consolem, tragam alento à maior dor que uma mãe pode viver. E o mote poderia ser: " Quem já viveu a dor da perda de um ser amado, e se sentiu sozinho nesta dor?"
Ao atingir esta dor, tocamos um dos sentimentos mais profundos que vivemos diante da morte e de outras perdas: a solidão. Pois a dor muitas vezes afasta as pessoas. Muitas são as pessoas que temem falar da morte e diante da perda, não sabem o que dizer ou o que fazer. Querem ajudar, mas se sentem impotentes, temem entrar em contato com aquilo que um dia pode lhes acontecer também...Porém quem perde precisa de um ombro amigo para chorar e desabafar . Para saber que está acompanhado em sua dor. Para saber que haverá alguém que o fará levantar se cair. Que haverá alguém ali para ajudar a secar suas lágrimas.
Se tocarmos esta dor, todas as pessoas presentes na sessão serão mobilizadas, pois teremos atingido o afeto primário que sacode a todos os seres humanos diante de uma perda.
Entramos em contato com os afetos primários pela empatia e pela compaixão. Ao "sentirmos com" o outro, de forma solidária e receptiva, acolhemos o outro e o aceitamos como ele é, com aquilo que ele tem. Tocamos a alma do outro, pois nos abrimos para ela sem crítica ou censura. Pela empatia e pela compaixão, reconhecemos a fragilidade do outro sem considerá-lo fraco. Reconhecemos que o outro é humano e tem direito aos sentimentos que tem.
Quando tocamos os afetos primários construímos bons motes específicos, que tocam a alma, mobilizam emoção, e fazem com que as pessoas queiram trazer suas experiências e partilhar as soluções encontradas.
Para trazer à tona os afetos primários, precisamos fazer boas perguntas, que complementem as perguntas do grupo. Frequentemente o grupo faz perguntas que visam conhecer a história, o cotidiano, os fatos, datas, ocorrências, ou seja, perguntas que buscam os dados. Exemplos destas perguntas são:
"Quando seu pai morreu?"
"Quantos irmãos você tem?"
"Onde foi o acidente de seu pai?"
Com estas perguntas buscam-se os elementos que precisam ser colhidos para entendermos a história que a pessoa viveu.
Outra forma de colher dados é perguntar sobre o comportamento das pessoas. Exemplos destas perguntas são:
"O que você faz quando não está trabalhando?"
"Como sua mãe reagiu à morte de seu pai?"
"Por que seus irmãos não ajudam você?"
"Você pede ajuda para seus irmãos"?
Estas perguntas informam-nos sobre o contexto, a maneira da pessoa reagir, suas interações.
Uma terceira forma de perguntar refere-se aos sentimentos que devem ser mobilizados na sessão. Exemplos destas perguntas são:
"Como você se sente hoje com tanta coisa para fazer?"
"Como você se sentiria se seus irmãos pudessem partilhar com você este momento?"
"Quem poderia ajudar você na sua dor?"
"O que faria você se sentir melhor neste momento?"
"Quem faria você se sentir melhor"?
"Como você se sentiria se pudesse se abrir com alguém em casa"?
"O que aconteceria com sua mãe se você chorasse com ela?"
"Como seria sua vida se seu pai estivesse aqui"?
Estas perguntas dirigem-se aos sentimentos e tocam o coração das pessoas. Elas não se atêm apenas aos comportamentos, e aprofundam a nossa compreensão. Elas nos levam aos afetos primários, pois abordam os sentimentos que estão além daquilo que a pessoa disse. Quando permanecemos no plano do comportamento, a sessão corre o risco de ficar superficial e nós podemos não encontrar o mote específico para atingir o centro do problema.
O mote específico que toca o sentimento de vários participantes sai da generalidade. Permite incluir muitas pessoas que mesmo não tendo vivido a situação em si, já viveram o sentimento que ela evoca. Elas se identificam com aquela dor e a terapia se torna então comunitária, pois passa a incluir o sentimento de todas as pessoas, que de uma ou outra forma encontram eco nos sentimentos expressados e vivenciados pelo protagonista. Apesar de ser específico, o mote torna-se abrangente, pois contém o sentimento de várias pessoas. Por isto é importante reconhecer o afeto primário envolvido na situação problema. E a melhor forma de reconhecê-lo é perguntando mais sobre os sentimentos e menos sobre os comportamentos.
Os participantes tendem a buscar dados sobre o comportamento. O terapeuta irá buscar reflexões sobre o sentimento. Ambas as formas de perguntar complementam-se, pois compõem a história e incluem a emoção. O terapeuta pergunta-se: o que esta pessoa diz e o que ela quer dizer? O mote deve atingir aquilo que ela quer dizer e ainda não conseguiu traduzir para si mesma.
Assim como o mote deve atingir o afeto primário, a conotação positiva deve contê-lo, abrindo perspectivas para o participante. Se a pessoa expressa sua solidão, podemos conotar positivamente que ela, ao se abrir, já não está sozinha, pois " alegria dividida é alegria em dobro, e tristeza dividida é meia tristeza."
Já pudemos desta forma valorizar que ela tenha se aberto, pois desta forma ficará menos só. Basta isto. Quem perde uma pessoa querida precisa compartilhar esta dor. Quando falamos da dor, podemos suportá-la melhor. Às vezes só isto basta na sessão. A pessoa não quer conselhos, não quer que lhe digam "você está fazendo demais e não está deixando seus irmãos fazerem". Ela sabe que os irmãos não estão em condição de fazer muita coisa. Ela é capaz de continuar fazendo, só precisa que a ouçam, que validem sua emoção, sua solidão, e a reconheçam neste sofrimento.
Quando tocamos no tema da morte, uma forma de conotar positivamente a pessoa é trazer a coragem dela em enfrentar este tema, e a possibilidade que ela oferece ao grupo de " reavaliar e valorizar a vida, pois o morrer nos faz pensar sempre no viver."
Ao conotar deste modo, damos um sentido àquela perda, e podemos falar da morte sem que as pessoas saiam desesperançadas. A conotação positiva toca também o afeto primário, e busca sua resolução. Quem sofreu injustiça pode ter validado o seu " esforço em lutar pela igualdade entre as pessoas ." Quem sofre rejeição, pode ser validado por estar " lutando para se incluir, valorizando-se para pertencer ." No caso da mãe que perdeu seu filho , conotamos sua disposição em ajudar outras mães, para que elas possam contar com mais ajuda do que ela contou. Que ela tem o dom de transformar o sofrimento dela em fonte de vida: da morte ela traz ao outro a possibilidade de viver. Que cada um de nós faz a sua parte, e ela está fazendo a dela. E que o ombro de todos os presentes está ali para ela contar e partilhar a saudade do filho querido.
A Terapia Comunitária, ao tocar o coração das pessoas, possibilita extrair do sofrimento e das situações difíceis, o crescimento, o aprendizado, o fortalecimento, a oportunidade de se sair melhor, de beneficiar aos outros com a aprendizagem de cada um. Ela fortalece a resiliência, e auxilia as pessoas a elaborarem seus afetos primários, tocando-os e acolhendo-os, validando cada ser humano em sua individualidade e em sua capacidade de sair mais forte perante os desafios da vida. Ganham todos, participantes e terapeutas, que mobilizam suas emoções e se potencializam na arte de viver.
 

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