ACOLHIMENTO NA TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA - Maria Henriqueta Camarotti - Nicole Hugon


 
ACOLHIMENTO NA TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA
 Maria Henriqueta Camarotti[1] - Nicole Hugon[2] 

A Roda da Terapia Comunitária Integrativa (TCI) começa com a fase do Acolhimento. Todos sentados em círculo, numa relação horizontalizada, terapeutas e participantes, se preparam para viver esse momento. No início o terapeuta comunitário explica, em poucas palavras, o que é a TCI, expõe as regras e comemoram aniversários e datas importantes para os integrantes do grupo (CAMAROTTI e GOMES, 2009).

Falar de acolhimento seria falar da Terapia Comunitária como um todo, pois em cada fase e ritual vivenciado na Roda existem elementos de acolhimento, de suporte e de escuta. De fato, esta metodologia nasceu do acolhimento que os irmãos Barreto, Airton e Adalberto, se propuseram a fazer com as pessoas da Favela do Pirambu/Fortaleza, Ceará (BARRETO, 2007). No nascedouro dessa abordagem, emergiam espontaneamente vivências práticas de acolhimento[3], recepção, abrigo; sintonia perfeita com o desdobramento da metodologia utilizada, posteriormente denominada por Adalberto Barreto de Terapia Comunitária.

Para iniciar nossa reflexão sobre o Acolhimento, chamamos atenção para o significado de gesto e linguagem, expressões tão importantes nas relações humanas. Há que se harmonizar essas duas ações de forma que o ato de acolher seja percebido como falas e atitudes genuinamente expressadas pelos terapeutas comunitários no momento da Roda. O acolhimento é sentido e recebido como tal quando é realizado por uma pessoa que está se auto-acolhendo nas suas várias dimensões e realidades.

O terapeuta comunitário, para poder acolher o outro, deve começar a acolher a si mesmo nas suas múltiplas identidades; é nesta capacidade de se acolher que nasce a possibilidade de uma sintonia entre a postura, o gesto e a palavra, permitindo assim um acolhimento autêntico e realmente caloroso, pleno de verdadeira atenção por si mesmo no encontro com o outro.

 
Nesse sentido relembramos o conceito do filósofo Martin Heidegger[4], quando fala que o acolhimento do outro, quando na vigência de um autoacolhimento, se torna uma doação do ser e do tempo, verdadeiramente. Essa via de mão dupla de quem acolhe e de quem é acolhido, de quem fala e de quem escuta, forma um verdadeiro encontro, revelado numa dimensão fenomenológica mais íntima e menos coisificante. Carmem Lúcia Barreto (2008) complementa essa reflexão e afirma que na dimensão heideggeriana, a experiência consiste em ser “afetado” e “transformado” num encontro com o outro na sua alteridade, um acontecimento dramático que supõe o estar instalado num mundo como horizonte de encontros. Esse “horizonte, ao mesmo tempo, abre-se para transformações e resiste e se opõe a qualquer captura pelo outro”.

Portanto, o que se mostra mais importante prá nós é entender o acolhimento não como uma captura da alma do outro, e sim um processo de libertação desse outro, estimulando-o a assumir o leme de sua vida e direcionando-o para fazer suas escolhas. Em resumo, o Acolhimento na Terapia Comunitária é o ato de fortalecimento do grupo para entregar-se a si mesmo, empoderando-o na sua capacidade de decisão e busca do autoconhecimento. 

Para enriquecer este texto sobre o Acolhimento na TCI, gostaria de incluir as pertinentes reflexões do filósofo Martin Buber[5]. Este pensador, de origem judia, contribuiu, através do caminho da Filosofia do Encontro e do Diálogo, para entendermos as relações humanas como necessariamente uma reciprocidade dialógica, onde tudo se passa no “entre”, na relação entre os interlocutores. Segundo Buber, existem duas formas do homem se aproximar do mundo: colocando-se face a face na relação EU-TU, ou então, numa relação coisificante, denominada por ele de EU-ISSO.

A proposta da Terapia Comunitária e, sobretudo, do acolhimento que ela carreia, segundo nossa visão, está centrada numa relação EU-TU, significando uma relação inter-humana – termo utilizado por Buber – em tudo aquilo que ocorre na realização de uma Roda. Nessa relação caracterizada como inter-humana, quando alguém se expressa, falando de sua dor e de seu sofrimento, todos os demais se tornam cúmplices da história do outro, se revelando também parceiros na busca de soluções.

Os sentimentos, nós os possuímos, o amor acontece. Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora mas a realidade. O amor não está ligado ao EU de tal modo que o TU fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre o EU e o TU”. (BUBER, 2001, p.17 In GOMES, 2009/2010).

Importante frisar que para que o Acolhimento aconteça da forma como propõe a TCI necessário se faz respeitar e introjetar as regras do não julgar, não fazer discurso, não fazer sermão; pois, o julgamento do outro nos afasta inexoravelmente desse outro e inviabiliza uma relação na forma de EU-TU como concebida por Buber. A pessoa que julga transforma o outro em coisa, fazendo acontecer então uma relação EU-ISSO.

Finalmente podemos afirmar que para que o Acolhimento se torne um fenômeno de amor, numa concepção buberiana, há que se desenvolver entre os participantes da Roda uma relação sem julgamentos e sem a priori. Este é nosso objetivo e nosso sonho como terapeutas comunitários!

A fase do Acolhimento é um momento fundamental na Roda de TCI no sentido de promover a integração do grupo e a abertura de espírito para a participação da sessão. Concordamos com Maria das Graças Martini (2011) quando diz que “O sucesso da Terapia Comunitária começa com o trabalho do co-terapeuta que realiza o acolhimento que, quando bem feito, envolve os participantes numa energia de amorosidade e harmonia, deixando-os a vontade, acolhidos e em sintonia com o clima da Terapia”.

A integração na Roda se começa pelas atitudes: todos em circulo, numa posição de igualdade e direitos, na maneira de se sentar, de deixar o espaço aberto para novos participantes (mesmo que cheguem atrasados). Contrariamente às situações de verticalidade, que impõe às pessoas certo constrangimento, a Roda de TCI autoriza todas as formas de expressão; deixa as portas e janelas abertas para se chegar e sair a qualquer momento e vontade.

 A fala explicativa e amorosa sobre a Roda que irá acontecer, provoca muito conforto para as pessoas por saber antecipadamente o sentido do encontro. Além disso, as dinâmicas de aquecimento realizadas para aquecer e integrar o grupo é uma forma mágica de gerar foco e acuidade através de estímulo ao movimento e à expressão corporal. Os terapeutas comunitários franceses percebem o Acolhimento como o momento de “briser la glace”[6], onde os participantes relaxam e se entregam para viver aquela experiência.

Na Terapia Comunitária vemos que a fase do Acolhimento é o momento em que as pessoas são recebidas, integradas ao grupo, tranquilizadas de suas preocupações e ansiedades. Por ser uma metodologia com etapas precisas e sequenciais, as explicações iniciais tranquilizam os participantes e evitam o desencadeiamento de ansiedades ou outros sintomas ligados ao momento de expectativas. Em todas as etapas seguintes, os animadores anunciam os procedimentos propostos e reforçam sempre a Roda como um espaço aberto para falar ou não falar, se expressar da maneira como cada um consegue ou deseja.  Assim, o facilitador confiante na metodologia, pode superar o medo das falas soltas ou de que as "interpretações grosseiras" causem reações emocionais ou descompensações dos participantes. O acolhimento promove ao grupo um espaço de fala seguro e envolvente

Fazendo uma imagem desse momento, poderíamos considerar a Roda de Terapia como o momento onde “eu aqui posso soltar as armas e relaxar”, “aqui eu posso ser eu mesmo”.  Neste momento os participantes entram numa viagem, anunciada e preparada pelo “piloto” para que o encontro se desenvolva o mais harmonicamente possível: “Atenção senhoras e senhores vamos nos preparar para que o vôo seja confortável e amoroso...”

Consideramos a Terapia Comunitária Integrativa como uma metodologia lógica, concatenada, onde todas as fases têm sua importância em si e no conjunto. Seguindo essa concatenação, consideramos que o Acolhimento tenha os seguintes objetivos:

1-   Criar um espaço circular de fala e de escuta;

2-   Dar boas vindas a todos que vieram participar da Roda;

3-   Tranqüilizar as pessoas quanto ao processo da TCI que vai se desenrolar;

4-   Apresentar as regras da metodologia da TCI para os participantes;

5-   Promover a inclusão e estimulo da autoestima quando nas boasvindas, esclarecimentos e comemoração dos aniversariantes e das datas importantes;

6-   Promover relaxamento e segurança nas pessoas com as informações dadas e com as dinâmicas de integração;

7-   Integrar o grupo, tornando-o mais próximo, mais afetivo e lúdico.

Didaticamente, podemos dividir a Fase de Acolhimento em dois momentos: 1- Boasvindas e esclarecimentos e as 2- dinâmicas interativas.

Na primeira fase das boasvindas e esclarecimentos se torna fundamental a postura e o centramento do terapeuta comunitário. Esta postura segura e tranquila do terapeuta, baseada na precisão das regras e da metodologia, e muitas vezes na parceria dos coterapeutas, tem um papel muito importante, pois, oferece proteção aos participantes e proporciona que o grupo se autoregule.  É o momento em que as pessoas precisam assegurar-se que estão protegidas e seguras para se entregar àquela experiência. Normalmente elas trazem sentimentos e expectativas muito fortes e, às vezes turbulentas, para a Roda; são pessoas que estão vivendo dificuldades extremas na busca da sobrevivência, e, o Acolhimento é o momento de buscar apaziguar um pouco a mente para possa abrir-se para novas informações e experiências. É um hiato providencial no burburinho do cotidiano.

Muito importante sublinhar o trabalho realizado sobre os terapeutas comunitários durante sua formação, de forma a deixá-los tranqüilos, seguros e confiantes, pelos recursos da metodologia (regras etc) e pela confiança na capacidade de autorregulação do grupo. Nós terapeutas tendemos a perceber o grupo como uma força harmônica, onde podemos contar com ela durante todo percurso da Roda.

As dinâmicas interativas ou de aquecimento são oportunidades de romper com o fechamento natural de quem chega a um ambiente estanho, de forma a integrar o grupo num nível de horizontalidade harmoniosa e calorosa. Aconselha-se utilizar dinâmicas curtas (3 a 5 minutos no máximo), leves, alegres e adequadas a cada tipo ou idade dos participantes. Muito importante observar a cultura de cada grupo e utilizar dinâmicas advindas da história de vida, das vivências infantis ou mesmo do arcabouço cultural das pessoas.

A comemoração dos aniversários, festas, realizações e das boas notícias tem uma grande relevância neste momento de celebração da vida, antes de abordar o sofrimento, dirigindo a atenção para a possibilidade de superar dificuldades. É uma respiração de vida e bem-estar, acalmando os receios dos participantes, lembrando-nos que "após a tempestade vem a bonança", que a vida é feita também de momentos felizes. Ela também representa a aceitação de cada um pelo grupo.

Nesse primeiro momento da Roda, na fase do Acolhimento, é acionado o ponto de partida de um “fio” que vai se desenrolando até o final. Os terapeutas explicitam então que a Roda de TCI é um continuum, onde tudo faz sentido e tem uma função no contexto. Muito importante que o terapeuta expresse que a metodologia da TCI tem um começo, um meio e um fim. Claro que não é necessário nomear neste momento todas as fases vindouras, mas, os animadores da Roda transmitirão aos participantes a compreensão de que cada momento se completará com os seguintes. 

Como devem ser a fala e a postura do terapeuta nesse momento? A seguir listamos algumas sugestões para a postura do terapeuta:

1-   Atitude simpática, aberta, compreensiva e ao mesmo tempo firme nas suas colocações;

2-   Atitude corporal também de abertura, bem posicionado, olhando para todos nos olhos com suavidade, assumindo uma posição na Roda onde possa visualizar a maior parte possível do grupo;

3-   O discurso deve ser sintético, falando do essencial, daquilo que vai ser fundamental na seqüência da Roda. Falar num tom de voz suave, claro e numa altura possível de ser escutado por todo grupo;

4-   Cuidar para que não se interrompa a seqüência metodológica da Roda, sobretudo quando acontecem falas longas e fora do que é solicitado no momento;

5-   Saber cortar as falas ou discursos de forma suave e firme. Muito importante que o terapeuta esclareça que durante a Roda a pessoa poderá falar de suas dores e sofrimento e também ser escutada com carinho;

6-   A equipe de terapeutas comunitários deve ficar atenta a todo grupo, além de acompanhar as pessoas que estão se expondo naquele momento.

Entendemos que um Acolhimento afetuoso possibilita o grupo a ficar confiante e predisposto a participar da melhor forma possível da Roda da Terapia Comunitária. Esta convicção precisa ser transmitida durante a formação, assim como é nos encontros dos Módulos e das Intervisões que os terapeutas comunitários vão se preparando para acolher as pessoas no seu sofrimento, nas suas alegrias, nas suas peculiaridades e diferentes naturezas humanas.

Podemos concluir essa reflexão dizendo que se tivéssemos uma palavra para resumir toda a formação de Terapia Comunitária essa palavra seria Acolhimento. 

Bibliografia

BARRETO, A. P. Terapia Comunitária passo a passo. Fortaleza. 2007
BARRETO, J. A. P. Direitos Humanos e cidadania na favela. In: GRANDESSO, M. e BARRETO, M. R. Terapia Comunitária: Tecendo Redes para a transformação Social, Saúde, Educação e Políticas Públicas. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2007.

BARRETO, C. L. B. T. Uma possível compreensão fenomenológia existencial da clínica psicológica. Postado em 2008 http://www.lefeusp.net/arquivos_diversos/VIII_simposio_anpepp/textos%20pesquisadores/barreto08.pdf Postado em 2008. Pesquisado em 2012.
BUBER, M. Eu e Tu. São Paulo: Centauro Editora. 2012.

CAMAROTTI, M. H. e GOMES, D. O. Terapia Comunitária: a circularidade nas relações sociais. IN: OSORIO, L.C. e VALLE, M. E. P. Manual de Terapia Familiar. Porto Alegre: Artmed. 2009.
FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. 1986.

GOMES, P. B. A Filosofia do Relacionamento. Ano III - Nº VI- Out 2009/Jan2010 -http://www.cidadesp.edu.br/old/mestrado_educacao/artigos/egressos/2009/a_filosofia_do_relacionamento.pdf
LELOUP, J. Y. Cuidar do Ser: Filon e os Terapeutas de Alexandria.  6ª Ed.Petrópolis: Editora Vozes. 2001.

MARTINI, M.G.P. Mote: a alma da terapia comunitária Pesquisado em 28 de dezembro de 2011 http://www.abratecom.org.br/publicacoes/cientificos/artigo10.asp




[1] Neurologista, psiquiatra, mestre em psicologia, Gestalt Terapeuta, terapeuta comunitária e formadora dessa metodologia.


[2] Gastroenterologista, especialista em alcoolismo, terapeuta comunitária e formadora da TCI em Marselha - França


[3] A palavra acolhimento significa recepção, atenção, consideração, refugio, abrigo, agasalho (FERREIRA, 1986
 


[4] Martin Heidegger, filósofo alemão, é um dos pensadores mais importante do século 20. Esse pensador considerava o seu método como fenomenológico e hermenêutico. Sua proposta fundamental foi por em evidência o que está na maioria das vezes oculto nas coisas.


[5] Filósofo, escritor e pedagogo de origem judaica, nascido, no final do século XIX, em Viena, Áustria. Centrou sua obra na Filosofia do Diálogo. Publicou as seguintes obras: Eu e Tu, Sobre a Comunidade, Eclipse de Deus e Lenda do Baal Schem, A.
 


[6]  Quebrar o gelo
 

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