TER SAÚDE É TER PROJETOS por Henriqueta Camarotti

Henriqueta Camarotti
 
TER SAÚDE É TER PROJETOS!

Henriqueta Camarotti[1][1]

"Se me perguntarem como é que um passarinho engaiolado pode não se esquecer da arte de voar, a resposta é muito simples: é preciso não se esquecer da arte de sonhar. Quem é rico em sonhos não envelhece nunca. Pode até ser que morra de repente. Mas morre em pleno vôo. O que é muito bonito"
Rubem Alves

 
Expirou o tempo do manicômio. Expirou o tempo do aprisionamento da loucura e da exclusão do doente mental. Estamos sob a égide da integração das diferenças e da construção da cidadania.
Nas ultimas décadas a proposta da saúde mental tem sido a integração da pessoa no seu grupo social e familiar. Inclui-se nesse contexto todas as pessoas portadoras de transtornos psiquiátricos, antes chamados de doentes mentais [2].
A proposta é ver a doença como uma espécie de parênteses na vida e o indivíduo em sua totalidade biológica, psíquica, social, espiritual. Entender que a doença é um momento apenas, mesmo que seja vista como "crônica", de um contexto infinitamente maior e mais complexo da pessoa com suas peculiaridades, aspirações, sonhos e desejos.
O século 21 confirmou os ares libertários gestados nos vários movimentos sociais do século que o antecedeu. Por muito tempo os sintomas psíquicos foram considerados como fraqueza ou falta de força de vontade da pessoa que os apresentasse. Por conta disso, que criou um verdadeiro estigma, não raro se verifica uma imensa dificuldade de aceitar um transtorno psíquico e muito mais, aceitar o tratamento desses sintomas. Assim, aceitar a doença e o tratamento podem ser considerados sinais explícitos de saúde, evidenciando mecanismos de superação e transcendência. 
Nas ultimas décadas foi superada a ideologia manicomial em troca de uma proposta libertária; do aprisionamento para a interação familiar e social; dos medicamentos sedativos e restritivos para substâncias que ajudam a sociabilidade e criatividade das pessoas.
O ser humano é único e irrepetível. O sofrimento psíquico pode ser um encontro caleidoscópico, pluridimensional, vivido e expressado nas suas infinitas possibilidades. Pensar em saúde e, particularmente em saúde mental equivale a mergulhar em um processo de autonomia e engajamento da pessoa e no seu papel como ser social e comprometido com a comunidade e o bem estar público.
Bebendo das fontes da saúde mental na modernidade, hoje se define saúde não como uma mera ausência de doenças, mas também como um processo que possibilite que a pessoa e a comunidade se realizem, sabendo que ninguém é sadio em um ambiente que não o seja. Entende-se que saúde e compromisso com a coletividade são funções intrínsecas ao ser humano e diretamente relacionadas entre si.
Tentando expandir o conceito de saúde/doença, os profissionais de saúde já há tempos vêm se indagando: Como passar de um modelo que gera dependência para um modelo que nutre autonomia? Como romper com a concentração da informação pelos técnicos e "doutores" em geral e fazê-la circular, para que todos possam se beneficiar dela? Como resgatar o saber dos antepassados e a competência adquirida pela própria experiência de vida?
As respostas estão na proposta contemporânea do campo da saúde, que é perceber o homem e seu sofrimento no âmbito de uma rede relacional, não concentrar a atenção na doença, mas na promoção da saúde, ver além do sintoma (quem olha o dedo que aponta a estrela jamais verá a estrela), além de identificar não só a extensão da patologia, mas, também, o potencial daquele que sofre.
Contraditoriamente, na contemporaneidade coexistem diferentes redutos de práticas em saúde. Por um lado se convive com a precariedade de condições básicas nos sistemas de atenção à saúde que atendem às populações de baixo poder aquisitivo. De outro lado, a marca da abundância, exemplificada pela supervalorização da forma e da aparência do corpo, fenômeno este denominado dehigiomania ou idolatria do corpo (somatolatria).
Nesse viés, há uma preocupação excessiva com o corpo, levando-se a uma visão superficial e egocêntrica do mesmo e estimulando-se o consumo de bens e serviços voltados para a perfeição da forma corporal. Essa visão tem uma conotação materialista e deixa de lado os ciclos naturais do viver, promovendo inclusive exageros que não só afetam negativamente a própria saúde como costumam ser imensamente dispendiosos.
Pensar em saúde é integrar os ciclos naturais da vida, entendendo perdas, doenças, envelhecimento e morte como oportunidades de crescimento. Nas palavras de Groddeck (1988)[3], a doença significa um caminho para o conhecimento de si mesmo. O caminho vai nessa direção, ou seja, do aproveitamento das experiências difíceis do viver e das situações de doenças para o aprendizado de si mesmo e do outro. Enfim, imensas possibilidades são incorporadas à existência do ser humano quando este se abre para o aprendizado com a doença! Em outras palavras: é preciso que ele se deixe contaminar pela criatividade que a existência proporciona, pois adoecer, crescer, transmutar-se, aprender, são possibilidades da vida e ter saúde é estar aberto e em sintonia com as oportunidades que se descortinam a cada momento.
Finalmente, ter saúde é ter projetos! Projetos de coisas novas, abertura de espírito, disponibilidade para o novo, para a novidade que entra e se instala na vida. Isto é ter saúde!  Uma boa pergunta que os médicos deveriam fazer a seus clientes ao entrevistá-los em seus consultórios é: que projetos você tem?!

[1][1] Médica psiquiatra, neurologista, homeopata, especialista em saúde do trabalhador, gestalterapeuta e formadora da Terapia Comunitária Integrativa no Brasil e no exterior henriquetac@gmail.com
[2] Diferentemente da deficiência mental, que se caracteriza pelo comprometimento da capacidade cognitiva e intelectual do indivíduo.
[3]  D'ÉPINAY,M.L. (1988) Groddeck, a doença como linguagem. Campinas: Papirus
 
 

0 comentários:

Postar um comentário