ARTIGO - Consciência Autocurativa - Maria Henriqueta Camarotti




Consciência Autocurativa
Como o individuo pode colaborar com a sua harmonização e cura
Maria Henriqueta Camarotti (1)
 
“Se você quiser saber como foram seus pensamentos no passado, olhe seu corpo hoje,
se quiser saber como será seu corpo no futuro, olhe seus pensamentos hoje”.
(Deepak Chopra, pg 22, 2012)
 
Vivendo em um mundo de computadores, internet, tecnologias, chips, engenharia genética, transplantes de órgãos, comunicação virtual, poluição, condicionamentos de toda natureza, estamos fadados a nos oprimir de tal forma que não sobra tempo, nem oportunidade, para sermos nós mesmos e, muito menos, desenvolvermos o que há de mais sublime e sutil no nosso ser. Nessa perspectiva androitizada, como encontrar os caminhos para o autoconhecimento e o autoaperfeiçoamento? Como entrar em sintonia com o Eu interior para realização da autocura?
A humanidade está doente. Por mais avanços que temos adquirido nos cuidados com a saúde e informações sobre o binômio saúde-doença, ainda estamos engatinhando no objetivo por um mundo sem doenças e saudável integralmente. Além das ciências, as filosofias e as religiões têm abordado extensivamente essa busca; são muitos os textos, reflexões e práticas sobre o assunto, mas, de fato, a humanidade está adoecida e sem perspectiva de viver plenamente a paz e o bem estar que busca e, com certeza, merece.
A doença tem feito parte da vida, do envelhecimento e da complexidade humana.
Então, seguindo a idéia de Nietzsche2 sobre a grande saúde, ou seja, do desejo de vida, da capacidade de dizer sim à existência, de enfrentar combates físicos e existenciais que fazem parte da dinâmica humana, podemos considerar a saúde não como ausência de doença, mas bem como um modo de viver sua vida com coragem e força de desejar e de partilhar, apesar das limitações e dificuldades geradas pelas doenças. Podemos viver nossas doenças com saúde. Conhecemos pessoas que apesar de doenças físicas ou mentais, são capazes, felizes e conseguem transmitir essa felicidade aos demais.
1 Neurologista, psiquiatra, homeopata, mestre em psicologia, Gestalterapeuta, terapeuta comunitária
2 Friedrich Nietzsche foi um filósofo alemão do século XIX que escreveu vários textos críticos sobre a religião, a moral, a cultura contemporânea, filosofia e ciência. Entre muitas outras citamos algumas de suas obras: Assim falou Zaratustra, Além do bem e do Mal, Humano demasiadamente humano, O anticristo – praga contra o cristianismo, O crepúsculo dos ídolos e da possibilidade de cura. Atualmente existem várias teorias para explicar, por exemplo:
Nas últimas décadas as ciências da saúde têm refletido muito sobre os efeitos da psiquê humana no desencadeamento das doenças e também sobre a promoção da saúde o aumento da prevalência de hipertensão arterial, diabetes, doenças cardíacas e isquemias cerebrais. Geralmente as causas dessas situações clínicas estão relacionadas a dieta inapropriada, obesidade, falta de exercício e, o que tem sido mais comum, o estresse pessoal, no trabalho e ambiental, além da predisposição familiar. Algumas dessas causas estão diretamente ligadas aos hábitos e ao pouco empenho das pessoas no cuidado com a própria saúde.
Desde a década de 70 os médicos têm buscado responder a pergunta de como os efeitos do estresse afetam a saúde (BENSON; KLIPPER, 1975). Nos últimos 40 anos as etiologias psicossociais têm sido incluídas nas causas das enfermidades e nas propostas terapêuticas. Atualmente o principio da saúde integral e a valorização da contribuição das várias disciplinas – psicologia, sociologia, filosofia, entre outras – na saúde das populações tem sido aplicado pelos profissionais que labutam na promoção do bem estar e também por todos os pacientes e indivíduos interessados no assunto.

Nas ultimas quatro décadas as políticas públicas de saúde têm se debruçado na busca de promover o bem estar das populações, acreditando que todos os indivíduos podem ser instrumentos pró ativos de seu processo de viver saudavelmente. Os meios de comunicação têm aberto um grande espaço para debater sobre a promoção da saúde e prevenção de doenças. As pessoas têm acessado informações sobre alimentação e costumes saudáveis, além de explicações sobre as doenças e superação dos sofrimentos causados por elas. Mas, nos perguntamos por que a humanidade ainda está tão doente?
Mesmo naqueles que usufruem de uma boa condição socioeconômica, a incidência de doenças e a restrição causada por elas continuam preponderante.
Ao longo de nossa história, e também da pré-história, nós humanos temos caminhado na direção dos condicionamentos -religioso, cultural, social, familiar, pessoal. Ao mesmo tempo em que esses condicionamentos buscam moldar a natureza animal dos instintos humanos, têm também restringido e limitado nossa capacidade criativa e transcendente além de serem usados como instrumentos de massificação e manipulação por grupos de poder. As estruturas de poder se utilizam das paixões tristes3 que podem ser representadas pela culpa, o medo, a tristeza, o ódio, para manter Termo utilizado pelo filósofo Spinoza para representar as emoções e sentimentos que enfraquecem o ser humano e o deixa vulnerável às manipulações dos poderosos. Regina Schopke, em seu texto sobre Spinoza e o Problema da Liberdade Humana, descreve que para esse filósofo as paixões tristes são afecções que representam sempre a menor potência: o momento em que estamos separados ao máximo da nossa potência de agir, altamente alienados, entregues aos fantasmas da superstição e às mistificações dos tiranos. Enquanto que as paixões alegres são compreendidas como aquelas que aumentam ao máximo nossa potência de agir até o momento em que ocorre a verdadeira transmutação. Spinoza acredita que do as pessoas submissas e obedientes. Os condicionamentos têm sido fundamentais para a construção de uma sociedade com respeito ao outro e com princípios éticos, mas no pacote das modulações dos indivíduos vai também o bloqueio do desenvolvimento individual, da criatividade e de habilidades que poderiam ajudar a transcender a natureza biológica e integrar dimensões que facilitam a evolução da espécie humana.
Constata-se assim a urgência de se ultrapassar a luta pela sobrevivência e pelas necessidades básicas para se alcançar patamares mais sutis de buscas e realizações.
Para que a humanidade sobreviva não basta só contar com os recursos da estrutura material, é necessário expandir a consciência para novas formas de relacionar-se dentro da perspectiva de valores superiores como, por exemplo, o desapego, a generosidade, a compaixão e o amor. O ser humano se distingue dos demais seres por possuir um potencial que vai muito além das realizações concretas da sociedade. Se tirarmos uma média das condições de vida no planeta, vamos encontrar a predominância de indivíduos vivendo restrito aos projetos e objetivos ligados à sobrevivência e às posses materiais. E se considerarmos o campo dos sentimentos e das emoções, predominam situações de sofrimentos terríveis causados por insatisfações, abandono, carências, mágoas, etc. Como esperar que a humanidade evolua se não mudar os objetivos da vida e das relações?
Quando pensamos em ir além da sobrevivência básica, nos perguntamos de imediato como fazê-lo? Como romper a cadeia de restrições e dependências do mundo materialista e podermos vislumbrar outras fontes de realizações pessoais? O filósofo Krishnamurti4 responde a essa questão enfatizando a necessidade de libertação dos condicionamentos e o desenvolvimento de uma consciência plena de si mesmo, do eu interior, também denominado de self. Esse pensador fala que ter liberdade implica em desenvolver a humildade, a disciplina e o trabalho. Humildade como abertura para ver e aprender coisas novas; disciplina como a observação contínua de nós mesmos, dos nossos preconceitos, de nossas reações, da origem dos pensamentos, mágoas etc. E, finalmente, do trabalho, como forma de aplicar nas ações aquilo que for aprendido e conscientizado.
Uma vez que decidamos percorrer os caminhos direcionados a uma consciência elevada, a pergunta que ecoa no ar é: como o individuo poderá trabalhar em benefício da sua transformação pessoal?
máximo de paixões alegres, passamos aos sentimentos livres ativos.
4 Jiddu Krishnamurti (1895-1986) foi um filósofo e conferencista indiano que abordou temas da consciência humana e da espiritualidade. Defendeu uma transformação radical da forma do ser humano pensar e da organização da sociedade. Seus ensinamentos foram difundidos em várias partes do mundo tendo influenciado muitos pensadores e cientistas de vários países. Publicou muitos livros, entre eles: Aos pés do Mestre, Nossa Luz Interior, A Humanidade pode Mudar ? Sobre o Amor e a Solidão. 
Como podemos trilhar na direção da nossa harmonia e saúde? Que mecanismos intrínsecos podemos desenvolver para sermos pró-ativos na construção do bem viver e da plenitude? Mesmo que queiramos transcender as necessidades do nosso corpo biológico, torna-se fundamental que conheçamos e saibamos aproveitar os recursos maravilhosos do eu interior para empreendermos a caminhada da autotransformação. Não podemos deixar de lado o conhecimento de nossos recursos psicológicos e psicocerebrais como importantes aliados para atingirmos a nossa natureza transcendente.
Historicamente temos muitos exemplos de pessoas que romperam com o ordinário ou o convencionado pela sociedade para criar algo diferenciado para si e para humanidade. Algumas dessas pessoas se tornaram públicas e conhecidas por vários povos e culturas. Outras, que podem contar-se aos milhares ou mesmo milhões, percorreram esse caminho anonimamente; trabalharam ou ainda trabalham em silêncio, sutilmente, pelas transformações humanas, cada uma em sua área e localidade, com exemplos relacionados a moral, espiritualidade, a conduta, para si e para os outros.
Entremeando uma humanidade ainda carregada de atitudes deletérias, temos seres que fazem a diferença positiva por onde atuam. Esses seres transformadores de consciência estão em todas as atividades humanas, em todos os recantos do mundo, sem exceção.
Na maioria das vezes não são identificados como tal, mas seu trabalho com certeza faz a humanidade avançar em direção a uma consciência diferenciada.
Stalislav Grof5, psiquiatra e terapeuta transpessoal, cunhou o termo transracional para identificar pessoas que estão fazendo seu trabalho interno e dessa forma ajudando aos demais a se transformar. Para esse filósofo da psiquê humana, esse contingente de pessoas está se tornando uma nova espécie humana e, com certeza, esse salto evolutivo beneficiará toda humanidade.
Certos da importância do papel dos transformadores da humanidade, como nos tornarmos uma dessas pessoas, acreditando que o exemplo de vida é a grande contribuição para o mundo?
5 Stanislav Grof (1931-), psiquiatra e um dos fundadores do campo da psicologia transpessoal e pioneiro nos estudos dos estados alterados de consciência como forma de desenvolver o crescimento e o insigth da psique humana. Publicou, entre outros, os seguintes livros: Além do Cérebro, Emergência Espiritual, A Mente Holotrópica, Psicologia do Futuro, Respiração Holotrópica, Quando o Impossível Acontece.
O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons". Martin Luther King.
Capacidade de superação
No propósito de superar as enfermidades devemos contar com nossas potencialidades e capacidades psíquicas, emocionais e neurofisiológicas. Para isso, devemos conhecer também os mecanismos positivos do nosso organismo, sobretudo a função do sistema nervoso e dos órgãos sensoriais. Atualmente a neurociência tem se debruçado intensamente sobre as habilidades positivas do ser humano e a ampliação da capacidade psicocerebral. De fato, as atuais descobertas têm deixado de lado teorias e crenças antigas de que o cérebro seria um órgão estático e pouco suscetível à mudanças.
Em pleno século XXI já estamos transitando em uma nova era para o ser humano, onde o mesmo poderá ter mais credibilidade em si mesmo e nos recursos transcendentes das suas funções psíquicas.

Deepak Chopra e Rudolph Tanzi (2012) declaram que quanto mais os neurocientistas estudam o cérebro mais são evidenciadas potencialidades antes desconhecidas. Esses autores descrevem que existem cinco mitos sobre o cérebro - órgão ainda enigmático - que precisam ser superados; são eles:
1-Um cérebro lesado não pode curar-se a si mesmo;
2-A estrutura básica do cérebro não pode ser mudada;
3-O envelhecimento cerebral é inevitável e irreversível;
4-O cérebro perde milhões de células ao dia e essas células perdidas não podem
ser substituídas;
5-As reações primitivas como medo, raiva, inveja e agressividade dominam o
cérebro superior.
Então, ao propor o desenvolvimento da autotransformação e da autocura estamos afinados com o rumo atual da neurociência: superar os mitos restritivos e desenvolver potencialidades cerebrais importantes ao desenvolvimento pessoal e, sobretudo, úteis para criar uma humanidade melhor. Desde o século XVIII que os cientistas têm encontrado indícios da capacidade dos neurônios periféricos de se regenerar. Na época essas pesquisas não vieram a público. Com o desenvolvimento dos estudos mais recentes, evidencia-se que também o sistema nervoso central pode se regenerar graças ao fenômeno conhecido como neuroplascticidade, podendo remodelar e re-mapear suas conexões após injúrias do tecido nervoso (CHOPRA; TANZI, 2012). No fenômeno da neuroplasticidade ocorre um aumento significativo das conexões entre os neurônios, e dessa forma amplia a capacidade psíquica, mesmo quando haja perda neuronal, como por exemplo no processo de envelhecimento. Com esses novos conhecimentos pode-se reavaliar e destronar os cinco mitos acima descritos e talvez já possamos afirmar que eles estão com os dias contados.
Na prática da neurologia observam-se pessoas que se recuperam de perdas importantes causadas por isquemias cerebrais e traumatismos de medula, por exemplo.
Hoje com os procedimentos de estimulação e potencialização dos neurônios saudáveis, consegue-se recuperar total ou parcialmente a função perdida e fazer com que a pessoa readquira movimentos e habilidades antes impensáveis. No processo de envelhecimento saudável, mesmo diante de perda significativa de neurônios ao longo da vida, a pessoa pode desenvolver a percepção da realidade com mais consistência e sabedoria por conta da rica multiplicação de conexões dendríticas6 entre as células neuronais. O cerne desses exemplos de recuperação reside primeiro na certeza de que o sistema nervoso central possui pluripotencialidades e segundo no desenvolvimento de técnicas centradas na capacidade de estimular as conexões nervosas além do que era praticado antes desse
novo paradigma.
A capacidade natural de ampliar a função cerebral está diretamente proporcional a abertura para novas experiências e ao aprendizado de novas habilidades. Como iniciamos a reflexão deste texto, precisamos discutir como o individuo pode ajudar no processo de autotransformação e de autocura. Vamos refletir sobre a consciência de si mesmo no processo de superação das dificuldades e de autoaperfeiçoamento. A esse processo damos o nome de Consciência Autocurativa.
O termo Consciência Autocurativa refere-se à capacidade do ser humano de autocurar-se através de mecanismos naturais que vão além das funções habitualmente conhecidas do cérebro, como por exemplo, os estados alterados de consciência7. Trata-se do fenômeno da autotransformação utilizando-se da expansão da consciência de si e do contato com a consciência universal; significa um processo de expansão da capacidade humana de perceber a realidade objetiva e a realidade sutil da vida, fomentar os mecanismos de promoção da saúde pessoal e da humanidade. Pode-se falar de expansão do self ao processo que vai além do si mesmo e se integra à consciência universal e, consequentemente, potencializa a autotransformação e a saúde.
6 Dendritos : ramificações das células nervosas (neurônios) que possibilitam as conexões entre as células e capacidade do cérebro de ampliar suas potencialidades.
7 Estado alterado de consciência termo utilizado na Psicologia Transpessoal para significar modificações dos estados mentais sobretudo relacionadas ao tempo e ao espaço

A busca da consciência autocurativa pode ser vista como uma atividade mental consciente, intencional e contínua no sentido da preservação da saúde física e psíquica através do acionamento de forças internas e externas, do self e do Cosmo, como elementos eficazes no enfrentamento das adversidades pessoais e do grupo humano.
Para falar da consciência autocurativa, partimos do principio de que o ser humano tem o poder de transformar a si mesmo e de transformar o mundo. Este é o nosso lema e é por esse norte que vamos aprofundar alguns aspectos da caminhada e do desenvolvimento humano que possibilitem a conquista de uma vida plena para si e para o ser Gaia8, nosso planeta, nossa casa.
Nossa proposta
Nossa proposta é estimular e acompanhar as pessoas que se decidem a trilhar o caminho da autocura, sem dispensar naturalmente os recursos disponíveis na medicina, na psicologia, nas abordagens terapêuticas e humanistas, nas ciências quânticas; pelo contrário, integrando-os aos recursos próprios de cada pessoa. Para que essa integração ocorra, necessário se faz afinar a convicção de que somos muito mais do que temos realizado até o momento. Importante sempre lembrar de que nós e a natureza que nos habita possuímos infinitos recursos ainda inexplorados. Para se desenvolver a consciência autocurativa é necessário percorrer um caminho dentro de si mesmo, acionando os recursos disponíveis, conhecidos e aqueles ainda por descobrir. Este caminho é uma oportunidade de conhecer e re-conhecer potenciais que são partes desconhecidas de nós mesmos.
Esta proposta foi idealizada a partir da escuta de pessoas em situações de sofrimento, doenças, transtornos psíquicos e crises existenciais. A proposta se delineia em forma de passos sequenciados para melhor ajudar no encaminhamento da superação, organizando o resgate dos recursos pessoais e da natureza cósmica interior.

Na sequência do trabalho da autocura, foram delineados sete passos que vamos abaixo descrever:
1-Conhecer: assumir a situação e ampliar seu conhecimento sobre ela;
2-Aceitar: aceitar sua doença e vê-la como sua responsabilidade e oportunidade;
3-Conectar-se: voltar-se para se mesmo e possibilitar a sua conexão com o Universo;
8 Nome dado ao planeta Terra como forma de referenciar-se ao mito grego ligado a personificação da Deusa Terra.

4-Potencializar a cura: desobstruir, limpar, tirar o lixo no qual esteja envolto seus receptores de energia
5-Transformar-se (resiliência): a partir de sua dor e sofrimento transformar a sua vida mais plena e profunda;
6-Agradecer:jamais autovitimar-se, pelo contrário, agradecer o despertar que a doença lhe proporcionou;
7-Disseminar: transmitir o aprendizado e compartilhar sua experiência.
O primeiro passo para esta jornada de autocura é conhecer a situação, a doença ou o desafio vivenciado; saber exatamente o que está acontecendo com sua saúde e o bem estar. Saber do diagnóstico, quando possível, saber das possibilidades de tratamento e seus resultados e seu prognóstico. Muitas pessoas receiam saber sobre sua doença; evitam falar sobre o assunto ou mesmo dizer os nomes apropriados da enfermidade de que é portadora. Nesses casos temos os exemplos bem típicos de pessoas ou parentes que não conseguem pronunciar a palavra câncer ou mesmo esquizofrenia e outros que se envergonham de declarar que fazem tratamento para depressão, por exemplo. Geralmente esta dificuldade está calcada no significado familiar ou cultural
daquela situação ou enfermidade. Por exemplo, durante décadas o fato de dizer que alguém estava com câncer significava, inexoravelmente, dizer que a pessoa estava morrendo. A tradição preconceituosa vem passando de geração a geração, e mesmo diante dos avanços da medicina, tratando e curando pessoas com câncer – claro que de acordo com o estado da doença e dos recursos disponíveis – o peso negativo advindo da cultura ainda está bem presente nas pessoas. A depressão por exemplo, ainda é vista pela população de forma estigmatizante como falta de força de vontade ou falta de fé.
Esta visão interfere na aceitação da situação e na disponibilidade para o tratamento. A influência dos conceitos culturais algumas vezes é lenta e requer muitas gerações para transformar o significado das coisas e para atualizar aquisições e novas visões.
Quando se conhece a enfermidade da qual se é portador, torna-se sempre mais fácil conversar, sem subterfúgio, com seus médicos e terapeutas, buscar novas alternativas, ampliar o leque de opção de tratamento e, também, acionar os mecanismos próprios que possam ajudar o corpo a curar-se. Lembrar que conhecer é libertar-se.
A depressão é um exemplo bem adequado para se entender a importância do desafio que se tem pela frente. Quando a pessoa procura compreender a si mesma suas emoções e seus conflitos – abre-se a perspectiva de conhecer fatores que interferem no processo da doença depressiva, ela terá muito mais recursos para superar o problema e saber buscar as alternativas eficazes.
No âmbito dos sintomas psíquicos é importante compreender-se que, além dos quadros clínicos pertencentes aos diagnósticos psiquiátricos ou psicológicos oficiais, existem muitos sofrimentos que fogem desses campos, mas que fazem sofrer de forma igual ou mais profunda. Trata-se do sofrimento existencial que acompanha o ser humano em sua essência e em sua expressão como pessoa no mundo. Consideramos este sofrimento como a dor que carregamos pelas insatisfações e frustrações da vida e também pelo vazio essencial vivenciado no íntimo de cada indivíduo. Quando não se tem clara a missão diante da vida ou quando sua vocação não foi realizada, a pessoa sentir-
se-á vulnerável ao vazio e a sua consequente insuportabilidade. O descompasso entre o desejo interior e a vida real gera um sofrimento imenso e muitas vezes indecifrável.
Frequentemente, esse vazio serve como base para o desenvolvimento de muitos outros problemas, tais como relacionais, de desequilíbrios pessoais ou mesmo como pano de fundo para os transtornos psíquicos. Este sofrimento existencial pode somatizar-se e se transformar-se em doenças funcionais ou mesmo crônico-degenerativas.
Por tudo isso, faz-se necessário conhecer a situação que gera o sofrimento, ampliar todos os ângulos de visão possíveis para que se comece a caminhar na direção da superação. Se conhecermos o percurso fica mais fácil programar a caminhada e se preparar para os desafios que se tem pela frente.
O segundo passo é aceitar. Podemos falar de aceitação como a capacidade de dizer para si mesmo “Ok, eu me rendo” e complementar a frase se perguntando “e agora, o que preciso e posso fazer para superar o problema?” Esta segunda frase é tão importante como a primeira, pois significa que a pessoa aceita e abre o espaço interno necessário para seguir os próximos passos. Essa aceitação precisa ser sincera, acontecer de corpo e alma, seria como uma espécie de rendição positiva. Uma rendição no sentido de desarmar-se das máscaras de invulnerabilidade, de uma falsa prepotência, de distanciamento da realidade. Quando contatar-se o ser sensível que há dentro de cada um, se contata também os recursos reais disponíveis para iniciar o caminho da cura. A experiência de escutar pessoas doentes durante 34 anos nos permite afirmar que sem esta rendição o caminho em direção à cura não se faz possível; pois se instalaria uma briga desgastante entre o estado de sofrimento em si e o confronto com o fato de ser portador de uma doença. Nesse conflito o potencial saudável se esgota quase que completamente, não restando energia para o processo de superação. 

Para uma aceitação plena é necessário que haja uma postura de humildade diante da vida, neste caso entendemos humildade como a aceitação da realidade e a abertura necessária para novos aprendizados, deixando-se tocar por novas referências e paradigmas. Encontramos pessoas que ficam congeladas em emoções oriundas de traumas ou sofrimentos antigos e isso as impede de viver o presente e, portanto não as ajudam a trilhar o processo de cura. Geralmente essas pessoas conjugam os verbos no passado e se fazem prisioneiras de um processo que em si já foi dissolvido no tempo. A aceitação verdadeira requer atualização; transformar a visão de mundo e as referências filosóficas porque nesta transformação a pessoa se disponibilizará para a vida e
permitirá ser tocada pela sabedoria cósmica.
Em síntese, a aceitação é um passo que permite abrir espaço interno para facilitar a caminhada em direção à cura; facilita a consecução dos cinco passos que virão a seguir. Sem uma aceitação verdadeira todos os demais passos ficarão comprometidos.
O terceiro passo, a conexão, é o momento em que a pessoa abre suas antenas de contato com a energia primordial do universo. Essa etapa é assolada por conflitos entre as questões existenciais e as possibilidades de conexões. Normalmente o enfrentamento de uma doença grave faz emergir dúvidas sobre o sentido da vida, a razão da existência e indagações sobre a vida depois da morte. Em outras pessoas este momento é pleno de força interior e de sentimentos de fé no sentido mais amplo do termo.
A seguir vamos exemplificar algumas formas de conexão, mas faz-se necessário lembrar que cada pessoa encontrará aquelas formas de conexões que lhe são mais pertinentes:
1-Conectar-se com suas células, seu corpo, suas emoções, seus sentimentos, seu self;
2-Conectar-se com a rede de familiares e amigos que estão vibrando positivamente, cuidando e ajudando você;
3-Conectar-se com a equipe de tratamento, harmonizando-se com ela, deixando fluir os mecanismos mais sutis de contato e de atitudes empáticas e amorosas necessárias ao processo de cura;
4-Conectar-se com as crenças religiosas ou espiritualistas, permitindo o contato com a fé, com os sustentáculos filosóficos e com as bases da ética e dos valores;
5-Conectar-se com o planeta Terra e com todas as formas de vida;
6-Conectar-se com a energia cósmica que sustenta a criação e os seres e com a consciência universal;
7-Conectar-se com o amor e a compaixão que interliga tudo e todos numa só sinfonia.
A conexão permite o fluir das energias de cura e de amor nas duas direções: de doador a recebedor e vice versa. Nesse caso a pessoa se coloca em uma posição de recebedor e também de doador porque para nos curarmos mister se faz nos disponibilizarmos também para doação e, portanto, para a troca harmônica de compaixão e amor. A energia fluirá através de nós trazendo-nos o alimento e levando aquilo que ela puder nos agregar.
A solidão e o abandono são os sentimentos mais doídos que a pessoa enfrenta na vivência das enfermidades. A solidão é um meio de impedir o processo resiliente porque desconecta a pessoa de suas próprias bases. A conexão vem preencher os espaços essenciais para a transmissão do processo curativo e a realimentação da pessoa para enfrentar a caminhada. Conectar-se é permitir a caminhada no processo da autocura.
O quarto passo é potencializar a cura. Neste momento será necessário que a pessoa, já possuidora do conhecimento sobre sua enfermidade, da aceitação e das conexões, trabalhe ativamente pela restauração da sua saúde. Nesse passo, os pacientes podem ajudar positivamente os profissionais que lhe tratam e lançar mão de atitudes positivas e saudáveis, como por exemplo, exercícios físicos, alimentação, melhora do sono e também desenvolver conscientemente os recursos curativos do corpo. Nesse caso existe uma infinidade de caminhos desde as diferentes abordagens psicoterapeutas, a meditação, as práticas de relaxamento, Yoga, Tai Chi Chuan, exercícios com os chackras e rituais de cura psíquica que envolvem energias mais sutis. Nessa etapa as opções se alargam e a pessoa deve se permitir sentir, sem preconceitos, os caminhos que venham integrar seus aspectos corporais, emocionais, mentais e espirituais. Aceitar, de coração, e dentro do possível, todas as formas de carinho e acolhimento que lhe forem ofertadas.
Nessa busca se torna importante esclarecer que as possibilidades envolvendo energias mais sutis não estão necessariamente ligadas às crenças ou religiões, e sim envolvem conhecimentos das tradições, da sabedoria antiga e da transcendência, onde enfatiza que nosso ser possui caminhos energéticos ainda pouco conhecidos e quase nada explorados para promover a saúde e o desenvolvimento pessoal.
Na potencialização da cura se faz importante o mergulho em si mesmo para identificar a necessidade real da pessoa na sua constituição holística. No mergulho pessoal buscam-se as necessidades de transformação, de visão de mundo, de postura diante da vida e da humanidade e de caminho evolutivo. Uma grande parte da população vive por viver ou usam suas energias somente para as coisas materiais, mas na caminhada da autocura é necessário exercitar o sentido mais pleno da vida incluindo uma causa nobre e humanitária. Aqueles que vivem por viver fecham-se as dimensões mais sutis da existência.
Portanto, potencializar a cura abrange o cuidado com o corpo, com as emoções, com a mente, com a essência, com a espiritualidade. Para que isso ocorra a abertura paradigmática é fundamental, não rejeitando a priori nenhuma possibilidade. O mais fundamental é evitar os preconceitos que podem levar à exclusão de alternativas úteis para o caminho da autocura.
O quinto passo, transformar-se ou construir a resiliência, é a capacidade de transformar as vivências sofridas em aprendizado. A transformação significa o ponto de virada entre o sofrer por sofrer e o sofrimento como fonte de mudança interior. Para os alquimistas as transformações advindas do sofrimento podem ser consideradas um processo de transmutação, algo muito sutil e poderoso. Se a resiliência é a capacidade de transformar o sofrimento em competência, a doença em aprendizado, então esse momento é a passagem para um novo ciclo de vida, usufruindo de novas aquisições e de conhecimentos qualitativos.
Segundo Groddeck9 (D´EPINAY, 1988) a doença tem sentido de comunicação, então, saber decifrar a mensagem é um recurso primordial para a mudança de rota e aquisição de novos aprendizados. Compreendendo uma enfermidade como um chamado para o crescimento, no inicio esses chamados parecem sussurros, depois as vozes se tornam gritos de desespero porque não foram escutadas a contento; as tentativas de comunicação vão se tornando “gritos” insuportáveis e sofridos que aumentam o sofrimento para que paremos para ouví-los. Nesse estado de coisas, o processo que a princípio se tratava de alguns incômodos, tornam-se desequilíbrios fisiológicos e,
algumas vezes, doenças estabelecidas e até irreversíveis. Em todas as situações de doenças, mesmo aquelas causadas por fatores físicos, acidentes ou genéticos, a pessoa descobrirá um sentido e uma forma de transformar positivamente sua vida.
Uma dos maiores aprendizados da vida é saber identificar os sinais do corpo e refazer a caminhada, introduzindo novos saberes e novas visões, até porque tudo é imensamente dinâmico e mutável.
Agradecimento é o sexto passo para o caminho da cura. A atitude de conhecer, aceitar, conectar, transformar-se é completada com o sentimento de gratidão. Mas, agradecer a quem ou a que?
9 Georg Groddeck (1866-1934), nascido na Alemanha, foi médico e é considerado o pai da psicossomática. 
Na verdade o que importa verdadeiramente nessa caminhada é a atitude de agradecimento. Esse sentimento, de acordo com cada pessoa, vai ser dirigido à vida, aos curadores, àqueles que amam, aos recursos da ciência, ao planeta, ao cosmo, a Deus, ao amor universal e a própria doença. Cada pessoa vai descobrir dentro de si a essência desse agradecimento; cada um identificará as fontes que lhe nutrem e alimentam a alma. Este momento é muito pessoal e especial; é um momento de profunda introspecção. Mais uma vez vamos eliminar a idéia de que só quem agradece é quem comunga uma religião ou uma crença. Podemos ser gratos àquele sofrimento que tem veiculado tantas descobertas e transformações; às oportunidades de abertura para um novo ciclo de vida; à sintonia oriunda da criação universal. Podemos agradecer pela graça da vida e pela alegria do compartilhar com os seres viventes. Compreendemos graça como a essência do universo que adentra na pessoa e passa a morar em suas entranhas; são átomos diáfanos que compõem a natureza humana e nos tornam seres de luz.
Muitas vezes, em momentos de doença ou de sofrimento, tendemos a culpabilizar a nós mesmos ou a outrem. Geralmente se procura um culpado externo ou então nossa mente fica contaminada por ruminações de situações antigas ou de arrependimentos. A gratidão que vamos incluir nesta jornada é o melhor antídoto para sairmos das acusações e ampliarmos nosso espaço interior para a superação e cura.
Finalmente, o sétimo e último passo que é a disseminação daquilo que foi aprendido e incorporado como mudança. Na reflexão sobre a autotransformação fica claro que o processo de resiliência, quando verdadeiramente completo, promove a decisão profunda de transmitir as pessoas a nossa volta os aprendizados adquiridos na jornada. A pessoa que caminhou nos seis passos anteriores está plena de possibilidades para compartilhar com o outro sua caminhada, seu aprendizado, suas transformações.
Essa pessoa não se sentirá em paz enquanto não deixar transbordar nas outras pessoas as pérolas nascidas no percurso da Consciência Autocurativa e tornar-se-á alguém que compreenderá a dor vivida pelo outro; será capaz de escutar as dificuldades sem julgamento, sem discursos ou conselhos. Sua postura principal será de ouvir e acolher aquele que está na sua frente.
Algumas dessas pessoas se tornarão multiplicadores deste aprendizado através de participações em grupos de voluntários, no ambiente de trabalho ou dos amigos; através de divulgação de novas idéias ou mesmo através da reprodução dos passos que aprendeu. Na experiência de escutar pessoas temos percebido o grande valor do trabalho voluntário. Essa forma de trabalho gera uma energia e um sentimento inigualável a qualquer outra atividade, porque a pessoa está se dedicando a alguém ou a alguma causa totalmente desprendida de interesses ou retornos materiais. O exercício da doação da essência é o alimento dessa própria essência.
Então o que temos no final desta caminhada é um novo ciclo que se renova e se nutre de esperança e amorosidade para ajudar outras pessoas na superação das dificuldades enfrentadas.
Podemos visualizar esta caminhada como uma espiral, com círculos incompletos e ascendentes, cada vez mais sutis e ampliados. Caminhar nessa espiral gera movimento em todos os níveis, ressignificando o passado, vivendo intensamente o presente e construindo um futuro com mais perspectivas positivas.
Bibliografia
BENSON, H. e KLIPPER, M. Z. Relaxation Response. New York: Wings Books. 1975
CHOPRA, D. Super Brain. New York: Harmony Books. 2012
CHOPRA, D. A Cura Quântica. Rio de Janeiro: Best Seller. 48º edição. 2013
D´EPINAY, M.L. Groddeck: A Doença como Linguagem. Campinas: Papirus. 1988
SCHOPKE, R. Spinoza e o Problema da Liberdade Humana
pesquisado em 13 de dezembro de 2013.
SPINOZA, B. A Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2009.


 

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