O MOTE NA TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA

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O MOTE NA TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA

 
Maria Henriqueta Camarotti [1]
 
O mote é a alma da terapia comunitária. É a mola propulsora do processo grupal, é o momento de guinada do referencial individual para o grupo como objetivo e foco da terapia. Segundo Aurélio Ferreira (1986) mote significa tema, assunto, divisa, lema; palavra que os antigos cavaleiros tomavam por divisa em suas empresas. Segundo Maria da Graça Martini “o mote é uma pergunta-chave que permite aprofundar a reflexão de todos os participantes durante a terapia. Ele tem por objetivo facilitar a explicação do que a pessoa que relatou o problema está querendo comunicar de forma inconsciente”(MARTINI, 2011). 

Na formação do terapeuta comunitário, buscamos trabalhar firmemente a compreensão do MOTE, pois acreditamos que uma vez que seu conceito esteja compreendido e introjetado, o aluno irá entender a metodologia como um processo em espiral, cada passo e etapas se apresentam de forma clara e inequívoca, e fundamental para alcançar a próxima. Pois assim é o Mote, como um divisor de águas entre o aprofundamento da contextualização e o convite para a participação de todos no compartilhar da experiência.
Existem dois tipos de Motes:
1-Curinga
2- Simbólico ou Específico. 
 
O Mote Curinga é a pergunta universal para todos os temas: “quem já viveu alguma situação parecida o que fez ou está fazendo para superar”. No inicio da formação quando os alunos começam suas práticas, nós, formadores, orientamos para aplicar sempre o Mote Curinga, porque “não tem como errar”. Essa orientação promove muita segurança no terapeuta comunitário em formação para realizar as Rodas nas suas comunidades. Interessante notar que na pergunta acima descrita existem duas dimensões interessantes: a primeira tem a ver com a identificação com o tema e a segunda se relaciona a possibilidade de ter resolvido o problema ou então está em processo de resolução. Muito importante não esquecer de completar a pergunta curinga: “.... ou está fazendo para resolver” pois, muitas vezes a pessoa não superou totalmente o problema mas está em via de resolver ou simplesmente tentando. Para os demais participantes, e mesmo para a pessoa que coloca seu depoimento, dizer como está fazendo para solucionar sua dificuldade tem um caráter pedagógico de transmitir um caminho e uma crença que deve-se começar a buscar uma alternativa.

O Mote Simbólico ou Específico está relacionado diretamente ao tema contextualizado.  Se trata de uma compreensão simbólica, metafórica ou mesmo do sentimento vivenciado pela pessoa.  Este Mote exige que o aluno já esteja se desenvolvendo no curso e tenha alguma prática e compreensão da Roda de TCI; imprescindível que demonstre uma capacidade de síntese e de apreensão da idéia ou sentimento central da pessoa cujo tema foi escolhido. Eu particularmente prefiro usar o termo SIMBÓLICO em vez de ESPECÍFICO, pois, na verdade o Mote Simbólico é uma forma de simbolizar a vivência colocada, ou seja, é o  momento de elevar a questão para um plano mais sutil da consciência e dos sentimentos. Para mim, o termo ESPECÍFICO reduz muito a idéia, não expressando exatamente a magnitude da metáfora ou símbolo como ponto de encontro entre os seres humanos.

Sugerimos, então que os formadores, durante as primeiras Rodas de TCI na formação, utilizem o Mote Curinga e aos poucos vá introduzindo o Mote Simbólico. Atenção, sempre bom evitar os procedimentos complexos nas Rodas desenvolvidas pelos facilitadores e pelos alunos durante as atividades da formação. Entendemos que os alunos precisam primeiro perceber a simplicidade da técnica para depois ir acrescentando variabilidades de estilos, e no caso, o Mote Curinga é muito mais simples.

Abaixo apresentamos algumas dicas uteis na formulação do Mote:
1-      De preferência utilizar no inicio da Formação o Mote Curinga
2-      Anotar palavras chaves que vão surgindo na contextualização durante o depoimento da pessoa escolhida;
3-      Buscar utilizar palavras que estão no cerne da fala da pessoa no momento da contextualização, isso evita a imposição de sentimentos ou situações provindas do terapeuta e não da pessoa. Não colocar palavras na boca da pessoa”;
4-      Na elaboração do Mote Simbólico sempre fazê-lo sintético e bem claro, explicar demais perde a força e a adesão dos participantes; 
5-      Se durante o compartilhamento de experiência for utilizado um Mote Simbólico e não tiver ressonância entre os participantes do grupo, pode-se apresentar o Mote curinga ou mesmo redirecionar o MoteSimbólico pegando-se um outro ângulo da questão apresentada. Atenção não abusar de muitas inovações ou tê-las como regra;
6-      No decorrer do Compartilhamento das Experiências ou Problematização, o animador da Roda vai repetindo o Mote a cada um ou dois depoimentos dos participantes. Essa repetição soa como ritmo de uma musica que estimula as pessoas a não perderem o foco da questão abordada;
7-      Uma dica prática é contar com o coterapeuta da equipe que poderá sentar ao lado e ajudar o facilitador da Roda a achar o Mote. Pode-se também trocar idéias com os demais integrantes da equipe de forma aberta e espontânea;
8-       Finalmente, entendemos a apresentação do MOTE na fase de Partilha de Experiências como um momento fundamental para que a passagem do Individual para o Grupal. Nesse momento, o grupo se apropria da temática central e, como numa espiral, as experiências vão se integrando e ampliando as possibilidades de alternativas e soluções.
 
Quando deve o formador abordar a questão do Mote de forma mais profunda? em que momento da formação ?
 
Desde o início da formação os formadores vão explicitando a importância do Mote na metodologia da TCI. A principio enfatiza-se o mote Curinga e depois aos poucos se utiliza o Mote Simbólico. Em torno da 4ª a 6ª Intervisão deve-se aprofundar o entendimento do Mote através de um trabalho específico, onde os alunos possam exercitar as inúmeras possibilidades de Motes. Esses exercícios são importantes para treinar o Mote Simbólico.

Bibliografia
FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário Aurélio da língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. 1986.
MARTINI, M. G. P.  Mote: a alma da Terapia Comunitária.
http://www.abratecom.org.br/publicacoes/cientificos/artigo10.asp pesquisado em 26 de novembro de 2011.
 

[1] Neurologista, psiquiatra, gestaltterapeuta de grupo, terapeuta comunitária e formadora dessa abordagem.

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